NYT propagando um dos maiores mitos do Século XX: a qualidade da saúde de Cuba

Após a notícia de que o governo americano começaria a rever suas medidas contra Cuba, inclusive reiniciando a discussão sobre o fim do embargo econômico que existe desde a década de 60, muitas conversas se iniciaram sobre como isso afetaria a vida dos cubanos. Em uma delas, uma “jornalista” do New York Times pergunta se Cuba pode escapar da pobreza e se manter saudável, seguindo a cartilha doutrinária de que o sistema de saúde da Ilha de Fidel é bom e o responsável pela manutenção da saúde da população. Esse é um dos grandes mitos do Século XX, propagandeado por pessoas como Michael Moore em seu documentário Sicko, e que já foi desmascarado por diversas pessoas, inclusive cubanos.

O sistema de saúde de Cuba tem suas particularidades positivas? Sim! É impossível existir um sistema de saúde em um país em que se “morre” pouca gente e que não tenha aspectos “positivos” a se analisar. Mas mesmo eles são recheades de mitos… Nesse texto, o objetivo é falar sobre a diferença entre a realidade e a fantasia, mostrando um pouco do que está por trás dos mitos da saúde cubana.

1. Número de Médicos

Quando o Brasil começou a importar escravos Cubanos, digo, médicos Cubanos, o partido do governo e seus aliados — principalmente a milícia virtual — disseram que isso não afetaria a Ilha de Fidel, visto que há um excesso considerável de médicos na população de 11 milhões de habitantes (cerca de 6,4 por mil habitantes, acima do número que é considerado minimamente razoável de 2 a 2,5 por mil pessoas). Os números são amplamente superiores aos dos EUA, do Canadá e mesmo dos países Europeus. Ou seja, esse indicador parece algo até interessante.

Médicos (Fonte: OSUNR)
Médicos (Fonte: OSUNR)

Entretanto, deve-se lembrar que cerca de 1/5 dos médicos Cubanos (cerca de 14 mil) já se encontravam trabalhando na Venezuela, em troca de petróleo para abastecer a Ilha. Adicionando-se a esse número os mais de 11 mil médicos exportados para o Brasil, o  número já chega a próximo de 40% da força de saúde cubana que não atende a própria população — sem contar outras missões ao redor do mundo e os médicos que são exclusivos dos sistemas da elite, como o hospital mostrado por Moore.

Mas vamos analisar um pouco os motivos por trás desse número alto de médicos em Cuba.

Primeiramente, o sistema de de educação cubano é pouco seletivo para a entrada nas universidades. Muitas pessoas que não conseguiriam passar no vestibular para Medicina no Brasil podem ser admitidas nas universidades cubanas sem problema algum apenas por vínculos ideológicos. Isso leva, consequentemente a uma distorção no mercado de saúde com excesso de profissionais formados, o que facilita para o governo alocá-las onde bem entender — afinal, todas devem “pagar” para o Estado pelo privilégio de terem estudado “de graça”.

Em segundo lugar, em um país onde há poucos projetos de tecnologia e indústria, onde a agricultura é absurdamente simples, onde há pouca pesquisa, as pessoas acabam não cursando áreas como engenharia, agronomia, veterinária e encontram nas especialidades médicas uma forma de realizar sonhos profissionais — até começarem a trabalhar como médicos e se desiludirem. Aliado a isso, os cursos de medicina em Cuba são absurdamente mais baratos que nos outros países latino-americanos e que em todos os países de primeiro mundo por dois motivos simples: falta de acesso a tecnologia e foco em atenção primária — única e exclusivamente. Como os hospitais escola não tem aparelhos de diganóstico para “drenar” as verbas de instalação e manutenção, mais dinheiro pode ser despendido em contratar profissionais que em muitos lugares do mundo seriam redundantes, e com isso há tempo/disponibilidade da mão de obra para o ensino. Desse modo, as turmas de faculdade cubana podem ser bem maiores que as vistas no Brasil (às vezes 2000 alunos ingressam num ano). Assim, a demanda por vagas de medicina é prontamente atendida por um sistema montado para tal.

Com isso, consegue-se formar um médico generalista Cubano que seria uma mistura de Agente Comunitário de Saúde e Enfermeiro, capaz de lidar com prevenção e manutenção de tratamento (cuidando se a pessoa toma a medicação com a frequência desejada, por exemplo), mas quase inútil ante cenários complexos como cânceres. Podem até existir bons cirurgiões depois da especialização que não é obrigatória, que conheçam bem anatomia e fisiologia, mas a eles falta equipamento para as operações. O mesmo vale para todas as outras especialidades, há um profissional capacitado, mas faltam recursos para atender a população, caso ele não decida se enveredar politicamente e ascender na carreira tratando apenas a elite do país. Então, é óbvio que dará para se ter muitos médicos espalhados pelo país (grande parte de formação duvidosa, entretanto).

2. Saúde Infantil

Outro fator amplamente alardeado é que a qualidade de vida das crianças supera muitos países desenvolvidos. A mortalidade infantil seria menor que dos EUA, por exemplo, e os índices de vacinação seriam mais altos. Novamente, se esses dados fossem sérios, eles seriam interessantes. Entretanto, como tudo divulgado por uma ditadura e sem ninguém ter acesso aos reais números, é muito difícil de se acreditar neles.

Em primeiro lugar, é importante notar, como a forma de apresentar os dados esquece que parte do mérito dos números baixos não vem do governo socialista:

(…) de acordo com essas mesmas estatísticas [de mortalidade infantil] da ONU, em 1958 (o ano anterior à gloriosa revolução) Cuba figurava na 13ª posição, mundialmente.  Isso significa que a Cuba pré-Fidel, robustamente capitalista, tinha a 13ª menor taxa de mortalidade infantil do mundo.  Isso colocava o país não apenas no topo da América Latina, mas também acima de grande parte da Europa Ocidental, à frente da França, Bélgica, Alemanha Ocidental, Israel, Japão, Áustria, Itália, Espanha e Portugal.  Hoje, todos esses países deixam a Cuba comunista comendo poeira, com taxas de mortalidade infantil muito menores.

E mesmo despencando da 13ª posição (quando capitalista) para a 44ª (agora comunista), a ‘impressionante’ mortalidade infantil cubana é mantida artificialmente baixa pelas trapaças estatísticas do Partido Comunista e por uma taxa de aborto verdadeiramente pavorosa: 0,71 abortos para cada feto nascido vivo.  Essa é, de longe, a taxa mais alta do hemisfério.  Em Cuba, qualquer gestação que sequer insinue alguma complicação é ‘terminada’.” (Humberto Fontova)

Vale ressaltar ainda, que nas décadas de 50 e 60, a ONU ainda se importava com dados e não só com narrativa. Dessa forma, o sistema de saúde Cubano ainda estava sob escrutínio da comunidade internacional.

Outro dado interessante se dá quando analisamos os índices de vacinação, que são altíssimos. Isso acontece não necessariamente por conscientização da população sobre vacinas, mas principalmente por repressão do Estado. É só pensar que os pais seriam “chantageados” a vacinar as crianças conforme acontece com os pais do Bolsa Família — ou a carteira de vacinas está em dia ou o benefício é cortado. Outra forma de manter a vacinação em níveis respeitáveis é com programas de vacinação obrigatória em escolas públicas — as quais são frequentadas por todas as crianças cubanas. Assim, fica muito mais fácil controlar a população e garantir que as vacinas sejam apliacadas.

Vale lembrar que grande parte do movimento anti-vacina que existe ao redor do mundo se dá em áreas ricas, como Nova Iorque e California, onde os pais podem se dar ao luxo de perderem parte das economias bancando um tratamento de doenças de fácil prevenção, ou em áreas em que as pessoas duvidam do governo por causa de regimes tirânicos como na África e no Paquistão, não sendo necessariamente um resultado de falta de disponibilidade de vacinas…

Hospital Cubano (source: Humberto Fontanova, Mises BR)
Hospital Cubano (Fonte: Humberto Fontova)

Vale ainda comentar o absurdo quando se diz que Cuba apresenta investimentos em educação e em moradia. A Ilha propagandeia que nenhuma criança dormirá sem teto e ficará sem acesso a escola, entretanto, não se fala da qualidade do teto — que foi determinada como padrão para todos — ou da qualidade da educação. Muitos vivem em cortiços mais cheios que diversos barracos de favelas do Brasil e vão para escola aprender como o socialismo é bom, sem estudar o mínimo sobre a história do mundo, ou deixando de lado as ciências para focar em doutrinacão.

Por fim, quando a analista do NYT comenta sobre os investimentos em nutrição, vale a pena lembrar que o governo cubano não consegue oferecer alimentos suficientes para a população como um todosendo que grande parte da comida em Cuba vem dos EUA, mesmo com o embargo ainda vigente. Com isso, as pessoas precisam achar maneiras para sobreviver, as quais surgem com altos índices de prostituição (inclusive infantil) e com um mercado negro em si vibrante. A inventividade dos Cubanos consegue sobressair às restrições impostas pelos Castro e consegue manter a Ilha ainda funcional mesmo depois de 50 anos de miséria sob o regime comunista.

3. Expectativa de Vida

Uma coisa que muito poucas pessoas comentam é que a expectativa de vida de um país não necessariamente reflete um resultado do sistema de saúde desse lugar. Por que isso? Pelo simples fato de ela englobar todas as causas de morte possíveis em um único dado e a partir delas traçar uma média de quanto uma criança recém nascida pode chegar a viver. Além disso, entramos novamente no fator confiabilidade dos dados do governo cubano…

Um país como o Iraque ou Belarus, que estão em situações de conflito civil ou ainda sofrem as consequências de desastres como Chernobyl, terá a expectativa de vida menor que Cuba, independente de ter um sistema de saúde melhor. O mesmo vale para os Estados Unidos, em que as principais causa de morte de pessoas entre 25 e 34 anos são envenenamento, acidentes de trânsito, homicídios e suicídios.

Quando se consegue diminuir essas causas, principalmente a partir de muita coerção estatal no caso Cubano, é possível aumentar a expectativa de vida absurdamente sem nem se alterar o sistema de saúde. Um estudo sobre isso está presente no livro The Business of Health, em que se comenta que caso os EUA tivessem as mesmas taxas de mortes trágicas de outros países, a sua expectativa de vida seria a mais alta do mundo.

Como em Cuba se retiram as causas externas de mortalidade, com o desarmamento amplo e irrestrito da população — para facilitar o controle por parte do governo –, com a proibição de vários tipos de drogas e medicamentos, com a dificuldade de acesso a veículos automotivos — a existência de poucos carros implica em menos acidentes –, entre outros aspectos, a expectativa de vida tende a ser mais elevada. Juntando-se a isso, o controle do governo sobre a rotina da população e o baixo acesso a alimentos — levando a reduzida obesidade –, os números conseguem ser “melhores” que os de outros países que apresentam qualidade de vida da populacnao absurdamente mais elevada.

Assim, não é a saúde cubana que em si ajuda a população a viver mais, mas causas externas de morte que são retiradas a troco da liberdade das pessoas.

Conclusão

É bonitinho falar que Cuba tem um sistema de saúde que faz sua população viver melhor — eu mesmo infelizmente defendia isso quando tinha 10 anos de idade e estava no auge da doutrinação da escola –, entretanto isso é uma grande mentira. Cuba consegue mostrar que pessoas superam as restrições que um governo autoritário impõe e conseguem sobreviver a despeito de tudo que é feito contra elas. A Ilha Caribenha se destaca por ter uma população alegre, inventiva, trabalhadora e caridosa, visto que a maior parte dos migrantes faz de tudo para tentar ajudar os seus conterrâneos, mesmo que isso signifique colocar a sua própria segurança em risco.

Nessa linha, atribuir ao sistema socializado de saúde Cubano os méritos que residem em outros aspectos da vida da população da Ilha é no mínimo uma ignorância, quando não mau-caratismo absurdo e uma tentativa clara de enganar os leitores. Muitos jornalistas se enquadram na primeira categoria (ignorantes) — visto que eles usam métricas que não medem a qualidade do sistema de saúde para justificar sua opinião –, mas são frutos de anos de doutrinação advinda de membros da segunda. Tomara que os próximos anos mostrem como esse mito tão difundido não passava disso: um mito repetido a esmo por muitas pessoas que não fazem ideia do que estão falando.

Vale ainda ressaltar que o bloqueio americano não foi a causa da pobreza da Ilha, só ver o caso da Coreia do Norte e de outros países socialistas na África para entender que é o modelo econômico adotado por essas nações que machuca seus habitantes. Cuba é pobre por ter uma população pouco produtiva e por fabricar poucas coisas que tenham valor significativo, basta lembrar que todos os países do mundo à exceção dos EUA comercializavam quase que livremente com a terra de Fidel durante os 50 anos do embargo e mesmo assim o país caribenho não se desenvolveu.

Cuba tem muito a ganhar com a queda do socialismo e praticamente nada a perder. Que os órfãos da URSS e do controle Estatal espalhados pela imprensa aprendam isso e parem de difundir mentiras por aí.

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Economia, Política e Brasil

Pavilhão da República visto do Palácio do Planalto. Fonte (http://static.panoramio.com/photos/large/15388495.jpg)
Pavilhão da República visto do Palácio do Planalto. (Fonte : http://panoramio.com)

As pessoas que me conhecem há mais tempo sabem que eu tenho um posicionamento que chega a ser radical em alguns tópicos relacionados a política. Sou favorável desde pequeno a um Estado mínimo (quanto menor, melhor — mas acreditando que a anarquia é um experimento só teórico), favorável a um governo eficiente e defensor de baixos impostos (quanto mais simples e transparentes, melhores). Acho que o Estado pode fazer algumas coisas — principalmente relacionado a segurança, respeito a propriedade e justiça –, mas quem ajuda mesmo as pessoas são outras pessoas e não um ente imaginário que ganhou poder para substituir a religião no período posterior a Revolução Francesa e para manter os arroubos autoritários dos que iam contra o antigo regime. Acho que a política mais pura é aquela que se faz no dia-a-dia em relações interpessoais, em relações trabalhistas diretas, em movimentações de pessoas e em exigências de liberdade, não aquela feita numa eleição ou usando os poderes constitucionais para subordinar os outros aos seus interesses.

Por causa da minha educação, em uma família que mistura conservadorismo social com social-democracia em termos de governo, eu achava que muitas das coisas que aconteciam de errado no Brasil eram culpa das administrações e não do modelo. Por muitos anos eu imaginava um mundo perfeito como o dos países nórdicos descrito pelos meus professores da escola em que as pessoas não precisavam se preocupar com sua saúde, sua educação, com sua morte, pois o governo ia tomar conta de tudo. Achava que o que faltava para o mesmo acontecer no Brasil eram melhores políticos e gestores, por causa disso, sempre me importei em tentar entender a situação política do país e o que poderia ser feito para mudá-la. Acreditava que colocando as pessoas certas no poder, poderíamos ter o verdadeiro país do futuro — cheguei a cogitar me candidatar nos meus idos de Ensino Fundamental.

Entretanto, conforme eu estudava história, via que essa minha ideia era a mesma defendida por todos os revolucionários durante os séculos que passaram. Fui vendo que todos os regimes sanguinários que surgiram se deram por causa de pessoas que acreditavam que os detentores do poder seriam capazes de mudar o mundo para melhor, que conseguiriam construir o paraíso na Terra, e, contraditoriamente a minha idealizada sanha democrata, aquelas pessoas eram os “melhores” representantes do povo — pois haviam sido os escolhidos por ele e, por isso, eram aqueles que os representavam.

Tinha muita coisa de errado nisso…

A democracia não era perfeita. O poder de “ferrar” a vida de todos ser dado para 50% + 1 dos votantes não me parecia justo. O Estado podia a qualquer momento ser tomado por pessoas que iriam contra as aspirações de uma sociedade mais justa e de mais oportunidades. O Governo servia apenas para tiranizar e extorquir a população, sem ser responsável pelas atitudes de seus agentes e sem se responsabilizar pelo futuro dos mais inocentes.

Além disso, a minha idealização do Estado cuidando das coisas ia de encontro com a minha paixão por uma economia livre, em que eu pudesse comprar o que quisesse, pudesse viajar para onde quisesse, pudesse trabalhar na área que bem entendesse. O Estado controlando a economia levava a situações como a crise de 29, em que para manter o preço do café alto para os produtores brasileiros, o governo comprava e queimava as sacas excedentes, criando uma escassez relativa que permitia que os influentes tirassem mais dinheiro da população — mas graças a baixa lucratividade da medida governamental, pessoas seguindo o regime de mercado decidiram investir na indústria, o que melhorou um pouco a situação econômica do país.

Fui vendo também que o tão famigerado mercado — odiado por alguns professores que tive — servia para enriquecer as pessoas na bolsa de valores (eu comecei a assistir Conta Corrente na Globo News aos 13 anos de idade) e servia para direcionar os recursos excedentes para áreas que no futuro poderiam ser interessantes, gerando inovação. Para o mercado não fazia diferença se a pessoa era branca, preta, indígena, desde que ela tivesse motivação de trabalho, um mínimo de capital e uma vontade de arriscar. Enquanto isso, os “investimentos” do governo eram feitos em áreas que levariam sempre a votos, seja com políticas de transferência direta, seja com investimentos em infraestrutura — tudo sempre focando na próxima eleição.

Eu nunca entendi o porquê de manter as pessoas pobres no sertão do Nordeste prometendo sempre diversas coisas, ao invés de deixá-las a migrar para as cidades, onde a vida pode ser difícil, mas em que é bem mais fácil conseguir qualquer coisa: desde uma comida a um atendimento médico de emergência, desde um emprego (que não depende tanto da sazonalidade das chuvas) a uma escola um pouco menos pior para os seus filhos. Parecia que o interesse estava de um lado em manter o pobre miserável para que as promessas tivessem mais impacto e do outro em restringir o acesso dele ao mercado formal, seja de trabalho, seja de consumo. Isso tudo já nos idos dos anos 2000, depois que o operário que ia salvar o Brasil tinha assumido a presidência.

Quando eu comecei a estudar mais de economia, motivado pelos comentários do Guto Abranches e pelas matérias do Eduardo Grillo no Pelo Mundo — também da Globo News –, fui vendo o quê o Plano Real tinha feito para o país e entendi o carinho que os meus pais nutriam pelo FHC — minha compreensão nesse tópico melhorou ainda mais depois que eu aprendi o nome de Gustavo Franco e comecei a ler seus artigos. Meus pais, diga-se de passagem, passaram perrengues com os planos Verão e Collor, viram o poder de compra da família reduzido absurdamente por vários anos, tendo que correr para o mercado assim que saía o salário antes do homem da máquina alterar os preços de tudo e precisando fazer estoque de coisas para não faltar comida. Ou seja, não éramos nem de longe a família burguesa atacada com tanta sanha pelo PT e pelos outros “defensores dos pobres”.

Assim, eu percebi que a melhor coisa que um governo poderia fazer para qualquer pessoa era permitir que ela conseguisse planejar o dia seguinte, que ela soubesse que a sua moeda vai valer alguma coisa e que o seu trabalho vai continuar custando o mesmo para o empregador em termos monetários — descontando-se o aumento de produtividade, logicamente — hoje ou amanhã, evitando as injustas demissões por causa de deterioração financeira causada pelo governo. Coisas que uma dona de casa sabe, que um mestre de obra entende, que mesmo uma criança de cinco anos e que ganha mesada para comprar balinhas consegue abstrair. E não foi por acaso que o Plano Real tirou tantos milhões da pobreza…

Depois disso, vi que até mesmo o operário escolheu seguir um modelo mais austero de não gastar mais do que se ganha e com isso ele foi capaz de manter o sistema funcionando, segurando o famigerado tripé macroeconômico do Armínio Fraga nos primeiros anos do seu governo. O médico de Ribeirão Preto empossado Ministro da Fazenda foi tão ortodoxo quanto os economistas da PUC-RJ e da FGV, e, junto ao banqueiro internacional goiano, conseguiu dar uma credibilidade a política monetária do país que era impensável quando dos discursos do ex-sindicalista a presidente durante os anos 90. O país não degringolou como eu achava que iria, sorte dos brasileiros que tinham instituições sólidas — e sorte minha que não precisei tentar fugir para Portugal, como eu brincava com meus pais e avós que faria.

Meses se passam em 2003 e o governo parecia estar funcionando, a política de austeridade fiscal do médico e do banqueiro davam resultados, o Plano Real se mostrava maduro e tirava mais e mais gente da pobreza ao permitir que as empresas voltassem a contratar e que a economia crescesse. O programa social central do governo, chamado Fome Zero, havia sido jogado para escanteio por falta de resultados, e agora o foco estava no reestruturado Bolsa Família, que aparentava melhores resultados e mais eficiência — e só foi possível por causa da estabilidade econômica conseguida a duras penas nos anos 90.

Entretanto, o governo crescia a cada dia, ministérios surgiam para atender aliados políticos, agências aumentavam cargos e perdiam seu propósito fiscalizatório, mais e mais se ouviam histórias de funcionários públicos padrão Mendonça, de “A Grande Família”: trabalham quase nada, mas ganham horrores de dinheiro vindo dos pagadores de impostos. Isso não me cheirava bem. Não conseguia concordar com isso. Não entendia porque era necessário aumentar em 50% o número de cargos públicos, até porque isso significaria menos dinheiro para as pessoas poderem viver suas vidas.

Em Setembro de 2004, meu tio Paulo, juntamente com Sérgio Pardellas e Hugo Marques, escreve uma reportagem intitulada “Planalto paga mesada a deputados“. Era o início das denúncias sobre o mensalão e da caça às bruxas (leia-se ataque ao mensageiro e não à mensagem). O presidente da câmara começa um processo de intimidação aos jornalistas, tentando abafar a história — inclusive com queixas criminais contra eles. Alguns meses depois, Roberto Jefferson bota a boca no trombone e estoura o escândalo. Nisso eu já estava totalmente desacreditado com o governo, mesmo que nunca tivesse apoiado Lula e seu partido, o qual imaginava ser no mínimo tão sujo quanto qualquer outro por causa dos escândalos como o caso Celso Daniel, eu via que o governo estava fazendo algumas coisas boas para a população.

Com o mensalão, eu perdi qualquer pingo de resignação que poderia ter com o PT no poder. Com os processos contra o meu tio, eu perdi a capacidade de acreditar na dignidade daqueles corruptos e corruptores — por mais que meu tio ainda defendesse o voto neles pelos supostos ganhos sociais alegadamente atribuídos ao partido. O que eu vi ali não foi um atentado ao erário, mas uma afronta a democracia e a república onde o ente no poder faz de tudo para cooptar os adversários. E quando eu fiquei sabendo que os planos da liderança petista eram de se manter na presidência por no mínimo 20 anos, minhas esperanças para o país diminuíram ainda mais. Eu vi que o modelo democrático era tão frágil e ruim, que a única justificativa para sua manutenção é aquela dada por Churchill: os outros são piores.

Quando FHC e a oposição decidiram deixar Lula sangrando nas cordas a espera da eleição seguinte ao invés de investir pelo impeachment do presidente — lembrando que por coisa muito menor Collor foi deposto em 92 –, eu fiquei estarrecido. Não é possível deixar que uma coisa dessas aconteça: tem de tirar esse pessoal logo do governo! Veio 2006, e Lula foi reeleito na base da demagogia populista com um discurso que atrelava ganhos sociais a sua gestão e não à política econômica que foi mantida, com uma campanha de difamação contra o candidato Geraldo Alckmin baseado em terrorismo sobre privatizações, e com mentiras deslavadas para esconder a corrupção do governo e para atacar seu antecessor. Nesse momento, minha crença sobre a “escolha ótima” da população foi definitivamente abalada.

Ao mesmo tempo que tudo isso acontecia no país, eu tinha contato com mais tópicos de filosofia, sociologia, ciência política e economia. Nesses estudos das ciências humanas, eu conheci melhor Marx, Rousseau, Bacon, Montesquieu, Smith, Ricardo. Passei a admirar os três últimos, ser indiferente com aquele que tem nome de comida e a detestar os dois primeiros. Eu me perguntava (e ainda me pergunto): Como alguém pode em sã consciência defender que o meio determina o comportamento das pessoas? Esse “estudioso” nunca se deu ao trabalho de olhar a própria sociedade e ver que mesmo os nascidos em berço de ouro, com a melhor das educações do mundo, criados sob os mais valorosos códigos morais podem ser tão deliquentes como aquela pessoa nascida no gueto pode ser pura? E como o barbado alemão não conseguia enxergar que pessoas diferentes valorizam coisas diferentes, que tem produtividades diferentes, que tem merecimentos diferentes e que tudo aquilo que é de “comum” propriedade tende a ser destruído por negligência? Ele não conheceu a tragédia dos comuns?? Muito provavelmente ele não fazia ideia do que seria um banheiro público tratado como propriedade coletiva…

O pior foi ver que os filósofos que eu detestava eram idolatrados pela dita inteligência com quem eu tinha contato. Professores defendiam o socialismo ou o determinismo social de Rousseau e sua teoria do bom selvagem. Havia muito relativismo e tentativas de não se incentivar a diferenciação, o crescimento individual. Até mesmo pessoas dentro do movimento espírita chegavam a considerar que essas ideias valiam alguma coisa. Com isso me sentia desamparado quando de conversas sobre política.

Filosofia a parte e voltando mais para o campo político-econômico, eu já sabia que a abertura comercial era benéfica para as pessoas: mais produtos, mais opções, menores preços e mais qualidade. Concorrência sempre beneficia o consumidor, é só comparar uma praça de alimentação com um comércio local e ver qual delas tem mais opções e gera mais retorno. Já sabia que o FMI e o Banco Mundial não são os espoliadores da sociedade — esse papel é do governo. Já sabia que o padrão ouro era bem melhor do que a fiat currency — obrigado guia de estudos do IMF da Sinus 2006 por me fazer ler sobre a conferência de Bretton Woods. Mas eu ainda não tinha a total dimensão da influencia da economia na sociedade, o que veio após aprofundar meus estudos nos tópicos inicialmente debatidos em Introdução a Economia em 2008 e Introdução a Sociologia em 2009.

Os aspectos de micro e macro economia estavam diretamente relacionados a modelos sociais como os de Weber e Marx. As implicações das ações governamentais nas trocas voluntárias de indivíduos tendiam a sempre ser danosas, independentemente do dono dos meios de produção. Um governo que tenta restringir o acesso ao mercado e limitar as trocas — seja por imposição de preços, seja por regulações, seja por coerção direta — sempre prejudica a sua população ao diminuir o número de produtos a que eles tem acesso e ao impedir que crescimento econômico ocorra devido a trocas mutuamente benéficas. Assim, a liberdade econômica implica diretamente em aumento da qualidade de vida de uma sociedade, algo que eu fui comprovar depois ao ver os diversos estudos da Heritage Foundation e do Fraser Institute.

Nisso, eu vi quão perigoso um programa de assistencialismo social feito por tempo indeterminado pode ser. Eu vi como políticas protecionistas só beneficiam as empresas e os empregados de setores com força política para fazer a nação pagar por sua improdutividade (vide a lei a Informática e os monopólios governamentais). Eu vi como cotas raciais ou sociais podem gerar os mesmos incentivos perversos que o protecionismo, caminhando para a dependência e não resolvendo situação nem a curto, muito menos a longo prazo — na verdade gerando até outros problemas sociais a longo prazo. Eu vi como saúde e universidade públicas gratuitas serviam só para beneficiar uns poucos, seguindo o modelo de custos dispersos para benefícios concentrados, e passei a achar o processo cada vez mais injusto — me arrependo até hoje de ter apoiado o Obama por causa de propostas nessa linha.

Quando eu entrei no movimento estudantil nos meus anos de UnB, comecei a ter contato com pensadores mais liberais como Mill, Bastiat e Tocqueville, mesmo que fosse só em citações dos meus amigos quando da escrita de algum documento. Mas também passei a ver que existiam mais pessoas como eu, que buscavam um país mais livre, com menos coitadinhos e mais trabalho, com menos esmola e mais cooperação, com menos discurso e com mais ação. Esse convívio foi importante pois me instigou a estudar mais, a crescer como acadêmico, como debatedor e como pessoa. Ele também me mostrou que muitas pessoas que defendem com a mesma convicção pontos contrários aos meus não o fazem por falta de caráter ou ingenuidade, mas por valores diferentes ou por falta de informações. Se eu acho a liberdade o elemento mais importante, outros podem achar que são as igualdades — algo quase diametralmente oposto.

Nesse processo, comecei a ter discussões mais filosóficas com meu pai — Marco. Ele, que estudou economia e direito quando mais novo e que partilha dos mesmos valores conservadores que eu — apesar de não ser um livremercadista tão convicto –, me dava luz em alguns pontos mais espinhosos, me fazia refletir e me conduzia para uma posição mais ponderada. A formação com mais Schumpeter e menos Smith resultava em um entendimento de que o governo pode ter um papel a desempenhar no processo, sempre gerando excelentes conversas. Fora o quê, ele sempre levava as discussões para o aspecto moral por trás da coisa, tentando não ver o jogo como números, mas como melhoria de condição. Nesse sentido, acabei procurando economistas que tinham uma abordagem voltada a aspectos sociais dentro da visão que eu entendo correta, como Thomas Sowell e mesmo Milton Friedman. A Escola de Chicago com suas “second best solutions” apresentou sempre alternativas razoáveis e que procuravam ampliar a liberdade, ao mesmo tempo que não esqueciam das pessoas com mais dificuldades.

O mesmo acontecia com as conversas com o meu tio, que está bem mais a esquerda do que toda a família — algo que eu nunca entendi o porquê — e me passava a necessidade do jogo político e do entendimento do sistema como “a arte do possível” defendido por Bismarck. Era sempre divertido saber das notícias em primeira mão e ter a melhor fonte dos bastidores do congresso e do planalto a uma ligação. Além disso, ele sempre foi alguém com quem eu poderia conversar por horas sobre futebol, literatura e cinema com a mesma paixão com que discutíamos sobre o congresso. Ele ainda me deu o livro Sabres e Utopias, de Vargas Llosa, cuja leitura consolidou a minha mudança de um social-democrata pró-mercado para um liberal-conservador.

Mas voltando ao caso do Brasil e ao governo, em 2008-09 tivemos a crise. O presidente falou que ia ser apenas uma marolinha, mas com a equipe econômica toda modificada, não demorou muito para que as famigeradas políticas anticíclicas viessem para ficar e o governo finalmente desandasse para a direção que eu temia. Crédito foi liberado usando os bancos públicos para pessoas sem condições de pagar, com garantias de recuperação do capital a partir dos impostos — que cobririam os rombos quando necessário. Reduziu-se a tarifação para setores influentes, enquanto o resto do país pagava a conta para manter a arrecadação em níveis similares e para manter a improdutividade protegida. As contas públicas começaram a ficar diferentes — ainda havia o respeito ao tripé, mas o câmbio já passava a ser mais vigiado.

Em 2010 veio a nova eleição. Seria a chance de ver um debate de propostas e um candidato da oposição que pudesse criticar os desmandos do governo federal. O resultado, entretanto, foi um debate entre dois candidatos que se colocavam como os melhores continuístas para o sistema implementado. O tucano que gosta de intervir na economia e a petista desenvolvimentista. Com o operário coordenando a venda do dito poste, a ex-ministra da casa civil foi eleita mesmo em meio a escândalos de tráfico de influência e má gestão. O povo escolheu um caminho de mais intervenção no país pelos “arautos” do desenvolvimento e novamente a minha fé na democracia foi pelo ralo.

Veio a “nova matriz econômica”, que lembra e muito a política dos anos 70, e com ela a volta da inflação que mesmo em níveis “oficiais” mais baixos que na década anterior já apresentava ritmo de subida. A presidente decidiu comprar uma briga contra fundamentos econômicos e baixou os juros na marra — segundo o discurso ela estava lutando contra o malvado capital financeiro que explora os pobres. Ela ganha o primeiro round, mas apanhou o resto da luta inteira — knock out deflagrado pela economia, para o bem do país. Para esconder todas as besteiras, o governo começou a usar a chamada contabilidade criativa: tira do balanço de pagamentos os títulos que só vão ser cobrados daqui uns anos, adiciona receitas que ainda não entraram, mas que fazem parte do esperado; mexe no fundo soberano para fazer superávit; emite títulos da dívida para financiar os bancos públicos e esconde essas movimentações com malabarismos contábeis; e assim por diante.

Nessa história toda, o povo saiu perdendo. De início tudo parecia bonitinho: crédito barato, conta de luz com preço controlado, gasolina com preço congelado. Mas em poucos meses as medidas foram cobrando o seu preço: o controle de preços levou a endividamento da Petrobras e a perda de capacidade de investimento da companhia e das empresas energéticas. O aumento do consumo de luz — que estava artificialmente barata — levou a uma diminuição dos reservatórios que atingiu níveis críticos e forçou o governo a usar as térmicas, que produzem energia mais cara. E a inflação dos serviços e de outras áreas foi aumentando, devido a reduzida oferta e ao excesso de moeda em circulação por causa do crédito estimulado pelo governo, do excesso de gastos da máquina e do endividamento público. Com isso, os pobres foram perdendo o poder de compra e sofrendo a mesma ressaca que a economia passou na década de 80.  Se eu já não acreditava que o governo poderia ser sério, essa gestão consegue me mostrar certo a cada dia que passa.

O pior dessa história toda é que o governo não tem a hombridade de assumir a culpa pelas medidas desastradas que tomou e fica inventando fantasmas do passado como uma crise que já acabou ou terrorismo eleitoral que não existiu, além de usar estatísticas maquiadas de emprego para fingir que está tudo bem ou impedir a divulgação de resultados que não interessam aos mandatários. 2015 vai ser um ano penoso por conta de todo o ajuste fiscal que precisará ser feito. Torço que ele seja feito com corte de gastos, corte de programas avulsos que não ajudam ninguém (como o bolsa empresário) e redução da intervenção estatal na vida das pessoas…

Isso sem falar de toda a perda da estabilidade institucional que aconteceu durante o governo do partido dos trabalhadores. Ministérios, agências reguladores, empresas públicas e mesmo o Supremo Tribunal Federal foram cooptados por militantes. As indicações não atendiam a critérios técnicos, mas políticos: quem consegue garantir mais facilidades para o partido e atuar melhor no plano de manter o PT no poder por pelo menos 20 anos? Com isso, em 12 anos os serviços pioraram, mesmo tendo aumento de aportes oriundos de maior arrecadação tributária — tanto relativa, como absoluta. A ineficiência do governo voltou a perturbar e as incertezas começaram a surgir. As instituições que pareciam sólidas em 2003, se mostraram tão frágeis como as argentinas da década de 90.

O governo então tentou usar um movimento político municipal para virar um Estado contra seus opositores. Não deu certo. Ele perdeu o controle e incentivou o quebra-quebra pelo país nas famigeradas jornadas de junho, um dos maiores engodos dos últimos anos da recente democracia brasileira. Nisso, eu perdi qualquer respeito que ainda nutria pela presidente — o seu partido para mim já era de uma insignificância sem par, só comparável à dos comunistas e dos socialistas do Século XXI, e a consideração a seriedade das suas políticas em si nunca existiu.

Agora, nessa eleição, o mesmo partido que vem a 12 anos detonando o país com medidas autoritárias e populistas quer ser eleito para mais 4 anos. A campanha se resume no medo! Se você, pobre ou de classe média, que recebe auxílio do governo para comer, estudar, morar e se locomover não votar no partido, tudo isso que existe será tomado pelos imperialistas, classistas, illuminatis, seres malvados das sombras. Se você não votar no partido, você estará sendo um mal agradecido por tudo isso que foi feito para si. E os ataques pessoais e institucionais continuam. E a presidente não trabalha há meses. E os cofres públicos são assaltados para manter grupos de interesse felizes. E a população sofre com um nível ridículo de campanha eleitoral, com debates pobres em conteúdo e com uma presidente que não sabe fazer uma subtração, quanto mais conseguir gerenciar um país.

Para se manter no poder, o governo ainda tenta tomar a superioridade nas virtudes. São eles os únicos defensores dos pobres, das mulheres, das minorias. E o pior é ver que muita gente acredita nisso por não entender que as políticas públicas que são adotas com “boas intenções” tem efeitos perversos e que vão muitas vezes contra aqueles que se deseja proteger. O único jeito de se garantir direitos individuais é diminuindo a coerção que existe sobre eles e não tirando direitos alheios para “valorizar” um determinado grupo…

Por essas e por outras que eu sou contra esse bando de criminosos que está a frente do governo. Voto com minha consciência tranquila no candidato da oposição — que eu queria como concorrente a presidente desde o pleito de 2010 — não só por acreditar que ele vai fazer melhor que o atual status quo e por ele ter um melhor histórico de gestão, algo que será essencial para enfrentar a penúria do ano que vem, mas para ver o PT fora do poder.

As propostas de Aécio são melhores do que as petistas, apesar de ainda estarem muito distantes do país que eu quero e que vejo como o melhor para os brasileiros. Aécio infelizmente não vai privatizar os bancos públicos, nem a Petrobras, nem a Eletrobras, nem as comunicações, nem os transportes, não vai acabar com o Bacen nem com o BNDES. Ele vai investir mais dinheiro em sistemas falidos de educação e saúde, que deveriam ser abolidos e substituídos pelo mercado, associados a vouchers para garantir o acesso àqueles de baixa renda. Mas pelo menos ele tem histórico de ter conseguido melhorar as coisas ruins que aconteciam, diminuindo a fatia abocanhada pelo governo da renda das pessoas. Ele monta equipes técnicas que conseguem diminuir o aparelhamento das estruturas. Voto em Aécio porque ele tem a seu lado Armínio Fraga, Mansueto Almeida, Gustavo Franco, Antonio Anastasia, Mônica de Bolle, Bernardinho e outras tantas peças de uma equipe especialmente boa e que pode aos poucos reduzir os gargalos que o país tem ao diminuir o tamanho do Estado principalmente nas áreas em que ele só atrapalha. Isso por mais que eu não acredite que ele realmente vá cortar muitos impostos e gastos, apesar de acreditar que ele fará um sistema um pouco menos confuso e perverso.

Não voto por ter retomado a fé na democracia em si, mas por acreditar que há finalmente uma boa opção para votar — e mesmo na ausência de uma boa opção, sempre dei meu voto crítico no menos pior.

Brasão da República (Fonte: Flickr)
Brasão da República (Fonte: Flickr)

Acho que enquanto os brasileiros não aprenderem que o Estado está lá só para garantir a sua proteção física e jurídica e não para controlar cada aspecto das suas vidas, não será possível viver na sociedade que se deseja. O Brasil é desigual não por maldade dos brasileiros, mas em grande parte por causa de um governo que não deixa as pessoas buscarem o que lhes é de desejo e que espolia a todos para privilegiar alguns. Enquanto um deputado e um senador forem avaliados pelo número de leis que eles fazem — restringindo com isso a liberdade de todos ao confiscar dinheiro em impostos ou regulamentar o dia-a-dia das pessoas –, o congresso não irá para frente. Enquanto ao presidente couber escolher o rumo da nação e não aos brasileiros, o país ficará preso no tempo dependendo sempre da chegada de um salvador da pátria. Enfim, enquanto o indivíduo estiver submisso ao coletivo, nem liberdade, nem igualdade prosperarão na nossa terra.

O mercado pode não ser igualitário, mas ele não consegue extorquir o dinheiro de ninguém que não queira realizar a troca voluntária. Apenas o governo pode te obrigar a pagar por coisas que você não quer, para pessoas que não são competentes determinarem como elas serão distribuídas. Para alguém que tem a liberdade como valor fundamental, não é possível defender que o governo seja o agente de mudança — apesar de ser possível acreditar que existem governos melhores e piores. Então nesse sentido, eu tento dar a minha parcela procurando um Brasil que consiga vislumbrar um pouquinho mais de liberdade de iniciativa, de expressão, de imprensa, de empreendimento, de política e de vida.

Agências de fomento, fundações, indústria e pesquisa

Google Campus em Mountain View
Google Campus em Mountain View, CA

Fechando a série de textos específicos sobre a realidade da pesquisa nos EUA, gostaria de falar um pouco sobre outros três agentes que podem ser associados às instituições de ensino e que são co-responsáveis pelos excelentes resultados: as agências de fomento, as fundações privadas e as indústrias.

No Brasil muitas pessoas reconhecem a importância de agências como a Capes, CNPq, FAP-DF, Fapesp, Faperj, entre outras. Elas atuam distribuindo para laboratórios e universidades verbas que são obtidas como resultados de projetos ou coletadas com impostos. Dessa forma, estudantes e professores recebem bolsas de pesquisa, investigadores são convidados para dar palestras e participarem de eventos científicos, laboratórios compram equipamentos noves. Mas será que isso é o suficiente?

Nos Estados Unidos existem grandes agências/institutos como a NSF, a NASA, o NIH, a DARPA, além de várias outras agências federais (basicamente o financiamento do ensino/pesquisa é a única área com maior intervenção federal) e estaduais – em um número muito maior que as existentes no Brasil. Uma lista de algumas fontes de financiamento de pesquisa pode ser encontrada aqui: http://goo.gl/Ix5TKk. Mas essas entidades não atuam apenas financiando pesquisa nas universidades e companhias, elas também tem seus laboratórios espalhados pelo país como o Fermilab em Illinois, Los Alamos National Laboratory em Novo Mexico, Lawrence Berkeley Lab na Califórnia, entre outros e recebem pesquisadores nacionais/internacionais durante projetos de curto, médio e longo prazos em áreas específicas.

Os laboratórios das agências estatais normalmente são co-administrados por universidades, como o caso do Fermilab (http://www.fnal.gov/) que é administrado pela University of Chicago (http://www.uchicago.edu/). Assim, os pesquisadores de projetos estaduais e federais se encontram em constante intercâmbio com os professores universitários, permitindo uma atualização de ambas as partes e potencializando novos projetos. Vejo pelo caso da USC que tem um centro de pesquisa do National Cancer Institute (http://uscpsoc.org/), com pesquisadores próprios, mas que também recebe os pós-graduandos da universidade e realiza eventos anualmente para fomentar a colaboração.

Mas as agências estatais são apenas um dos elementos no fomento de pesquisa, desenvolvimento e inovação americano. Existem diversas fundações, institutos e associações privadas (a maior parte sem fins lucrativos) que atuam financiando projetos, estudantes e universidades. Alguns exemplos são a American Heart Association, American Cancer Society, Annenberg e Ford Foundations que fornecem bolsas de pós-graduação e pós-doutorado, investem em laboratórios e professores e muitas vezes tem seus próprios laboratórios e centros de pesquisa (seja nas universidades, ou em outras localidades).

Muitos alunos brasileiros podem atestar isso em suas visitas a universidades americanas. Diversos prédios tem nomes de pessoas pois foram financiados com Endowments de pessoas, companhias ou de fundações. O prédio em que eu trabalho, por exemplo, se chama Hughes Aircraft Electrical Engineering Center devido a uma doação da companhia Hughes Aircraft. Além disso, vários alunos da USC estudam com bolsas da Annenberg Foundation cujo foco está em ciências da comunicação (cinema, publicidade, comunicação social, engenharia) e saúde. Outro exemplo de aplicação de ativos privados em pesquisa está na Fundação Gates (http://www.gatesfoundation.org/), co-dirigida por Bill e Melinda Gates e Warren Buffet – a seguinte citação descreve muito do que se passa nesse cenário:

(…) I had read a lot about how governments underinvest in basic scientific research. I thought, that’s a big mistake. If we don’t give scientists the room to deepen our fundamental understanding of the world, we won’t provide a basis for the next generation of innovations.

(…) We fill a function that government cannot—making a lot of risky bets with the expectation that at least a few of them will succeed. At that point, governments and other backers can help scale up the successful ones, a much more comfortable role for them.

Bill Gates, Wired Magazine, December 2013

Outra iniciativa são algumas start-ups ou mesmo ramos dentro de companhias maiores cujo objetivo é levantar verbas de pesquisa para projetos de grande impacto, mas que não estão no escopo de agências federais. Um exemplo disso é a recém lançada Calico (http://goo.gl/2rZNq7), uma venture da Google que visa financiar pesquisas relacionadas ao processo de envelhecimento – algo que pode dar resultados em 20 ou 30 anos e que dificilmente seria financiado por verbas estatais que objetivam um impacto a curto-médio prazo.

Dessa forma, a pesquisa não depende única e exclusivamente do governo como vemos no Brasil, e os projetos podem ter um escopo infinitamente maior do que os financiados pelo dinheiro dos pagadores de impostos. Além disso, alguns riscos diferenciados podem ser tomados o que resulta consistentemente em inovação – enquanto projetos mais conservadores tendem apenas a promover melhorias incrementais. NSF, NIH assim como Capes e CNPq não financiam projetos que sejam inovadores, normalmente as pesquisas financiadas por estas entidades tem de ser baseados em várias publicações prévias e apresentar um certo grau de segurança do investimento – diferentemente do DARPA, que financia muitos projetos de alto risco como foi com o surgimento da internet, ou ARPAnet nos seus primórdios.

Outro fator determinante para o ambiente de pesquisa americano está nas indústrias. Diferentemente do Brasil, grande parte do material humano egresso das pós-graduações (mestrados e doutorados) vai para o setor privado (cerca de 80% dos alunos de STEM – science, technology, engineering and math -, e 90% dos alunos especificamente de engenharia, enquanto no Brasil apenas cerca de 20% dos doutores se encontram fazendo pesquisa fora das universidades). Dessa forma, a universidade alimenta o mercado e recebe como resposta incentivos para melhor formação e mais pesquisa de ponta (seja com demandas, com verbas ou parcerias).

Vale lembrar que algumas das maiores companhias americanas surgiram por meio de egressos de programas de pós-graduação, como no caso do Google que foi fundado por Sergey Brin e Larry Page (estudantes de PhD em Stanford). Além disso, várias companhias apresentam seus próprios centros de pesquisa como a GE, Siemens, Toshiba, Apple os quais servem para gerar propriedade intelectual para as empresas, mas também promovem o avanço da ciência. Assim, é comum ver em diversas conferências pesquisadores de empresas apresentando trabalhos junto a professores, não ficando o universo restrito às instituições de ensino superior.

Outro fator é o intercâmbio de professores com companhias. Muitas vezes empresas contratam docentes de universidades para trabalhar em projetos específicos (por exemplo o projeto Google Glass contratou cerca de 270 pesquisadores de diversas universidades americanas nos últimos anos) ou instituições de ensino contratam funcionários de companhia para trabalhar em seus quadros docentes. Desse modo, há sempre uma rotatividade de profissionais e uma colaboração amplamente benéfica dos ambientes.

Assim, quando adicionamos múltipos agentes para fomentar a pesquisa seja no financiamento, seja nos objetivos, seja na infraestrutura, temos um ganho para a sociedade. Os alunos se beneficiam de duas formas diretas que são mais bolsas e maior empregabilidade depois de terminada a sua formação. Os professores ganham com mais fontes de financiamento, melhores laboratórioes e possibilidade de ver os seus projetos se concretizando e impactando a sociedade. As agências, os institutos e as fundações beneficiam a população e geram resultados concretos para a realidade em que se encontram. Mas o principal beneficiado de tudo isso é o indivíduo comum que consegue ter acesso a inovações constantes e um aumento significativo em qualidade de vida.

Por Davi Marco Lyra Leite, membro da Aliança pela Liberdade desde 2009, graduado em Engenharia Elétrica pela UnB (2/2012) e estudante de doutorado da University of Southern California.

 

Educação e Pesquisa

Texto originalmente publicado no blog e no Facebook da Aliança pela Liberdade, entidade discente do Movimento Estudantil da Universidade de Brasília, em Novembro de 2013.

Algumas diferenças entre o sistema de ensino americano e o brasileiro

Os resultados americanos a nível de high school (ensino médio – EM) não são tão significativos quanto os do ensino superior. Enquanto o país coleciona prêmios Nobel, ele se encontra apenas em 17o lugar no PISA (http://www.oecd.org/pisa/46643496.pdf) – resultado esse da avaliação aplicada a estudantes de 15 anos de idade, 10o ano do colégio (segundo ano de high school ou primeiro ano do EM brasileiro). Mas mesmo assim, algumas lições muito interessantes podem ser tiradas do modelo americano, principalmente no que tange à questão da admissão nas universidades a às atividades realizadas durante as férias de verão. Além do que, vale ressaltar que, à exceção do Japão, todos os lugares à frente dos EUA no PISA tem população total inferior ao número de alunos matriculados no sistema educacional americano (quase 82 milhões de pessoas), o que torna o desafio de oferecer uma educação abrangente e de qualidade infinitamente superior.

Muitos brasileiros que fazem intercâmbio durante o Ensino Médio (ou mesmo Ensino Fundamental) comentam que normalmente os currículos são menos aprofundados que os do Brasil, que as matérias são mais fáceis ou que o nível de exigência é menor. Alguns conteúdos que fazem parte da matriz curricular brasileira a nível de ensino fundamental são abordados normalmente nos EUA apenas nos anos de high school. Todavia, essa regra não vale para todos os Estados, para todas as escolas e para todas as modalidades de ensino, visto que o sistema americano é bem diferente do brasileiro. Um dos primeiros pontos que vale ressaltar é a ausência de uma Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), apesar de atualmente existir um projeto de currículo unificado que vem sendo adotada pelos governos estaduais chamado Common Core (http://www.corestandards.org/).

Mas como eu disse, os padrões de ensino variam muito a cada lugar e principalmente de acordo com o tipo de programa que o estudante está cursando. Normalmente há três tipos de aulas no ensino médio americano: as aulas normais, as aulas do chamado Advanced Placement (AP), e o International Baccalaureate (IB). O primeiro nível – aulas normais – compõe o corpo do Ensino Médio e conta com matérias mínimas de inglês (normalmente focando na literatura), história, geografia, matemática (especialmente álgebra), etc – sendo normalmente o nível que é cursado pelos intercambistas brasileiros. O segundo nível conta com matérias mais avançadas que podem vir a ser contadas como crédito nos cursos de graduação – existem APs em cálculo, línguas estrangeiras e inglês, física, história, entre outros. Por fim, o IB visa ter um padrão de ensino similar com várias outras localidades do mundo e normalmente apresenta um nível ainda mais aprofundado de conteúdos que os APs – alunos estudam física já usando uma abordagem de cálculo, por exemplo.

Além das aulas normais, os alunos americanos ainda devem escolher algumas matérias/atividades optativas para completar suas horas de formação acadêmica. Entre essas atividades encontram-se por exemplo pesquisas em ciências, jornalismo, esportes, línguas estrangeiras, artes, computação. Com isso, o aluno normalmente não fica só engessado nas aulas normais – há vantagens e desvantagens desse modelo, reconheço, mas ele tem por objetivo dar uma visão mais ampla do que só a de sala de aula (sendo que normalmente são essas atividades que são o foco de séries adolescentes de TV). Vale ainda lembrar que existe a opção de Homeschooling, em que os alunos não frequentam a escola e são educados em casa seja pelos pais ou por professores contratados – controvérsias à parte, esse modelo apresenta vantagens e desvantagens como qualquer outro.

Além dos programas mais aprofundados de educação, no caso o IB e o AP, existem escolas para jovens considerados superdotados como a North Carolina School of Science and Mathematics (http://en.wikipedia.org/wiki/North_Carolina_School_of_Science_and_Mathematics) ou outras escolas ao redor do país. Nelas, estudantes aprendem conteúdos ainda mais avançados e em programas mais desafiadores, que visam potencializar as habilidades dos estudantes. Sendo que muitos alunos de destacados resultados conseguem ingressar na faculdade pelo menos um semestre (quando não um ano e meio) antes de terminar o ensino médio.

No Ensino Fundamental (EF) também existe a possibilidade de aulas mais avançadas e projetos em paralelo – além da escolha de algumas disciplinas ou atividades eletivas nas escolas. Em geral, nessa fase, os alunos começam a transitar entre as salas de cada matéria, ou seja, não há a figura da sala de aula da turma A da oitava séria, mas existe a sala de aula de história, a de matemática, a de geografia. Desse modo, os professores tem a facilidade de ter os recursos didáticos a seu alcance em cada aula e podem caracterizar os seus ambientes de ensino conforme o conteúdo específico. Além do mais, o que se destaca normalmente é o objetivo de ensinar não apenas as matérias, mas como utilizar algumas ferramentas que vão fazer parte do dia-a-dia dos estudantes quando eles se formarem – como calculadoras e computadores. Com isso, vários alunos no final do EF já sabem mexer melhor nas calculadoras científicas que muitos estudantes das universidades brasileiras, apesar de, infelizmente, não entenderem as operações matemáticas que estão realizando.

E o que tudo isso tem a ver com a pesquisa e o desenvolvimento científico que são o foco dessa série de textos?

Eu identifico algumas correlações que são interessantes:

1. É mostrado aos estudantes que a sua trajetória acadêmica depende muito mais deles do que de qualquer outra pessoa. Seja na escolha das matérias que os alunos vão cursar, seja no nível de complexidade dos cursos ou na seleção de atividades extra-curriculares, o aluno é o responsável pela sua formação. Os professores atuam como facilitadores e orientadores da caminhada, mas o trabalho sempre é do aluno!

2. A carga de deveres de casa normalmente é altíssima comparada com o que vemos no Brasil, os estudantes aprendem as linhas gerais em sala de aula, mas o processo de assimilação de conteúdo vem do trabalho de cada um. Mas vale ressaltar que as escolas são normalmente preparadas para dar suporte aos alunos com centros de tutoria (monitoria), com aulas extras, com bibliotecas e com atendimento dos professores. Isso está diretamente relacionado ao que acontece no ambiente universitário e de pesquisa, em que o processo de investigação é definido pelo estudante e não pelo orientador (este pode dar dicas, pode sugerir leituras, cursos, mas ele nunca estará fazendo as coisas pelos alunos)..

3. Os alunos são incentivados a estudar aquilo que lhes atrai, podendo aprofundar os conteúdos com aulas específicas, com competições de ensino (as famosas olimpíadas de conhecimento e feiras de ciências), com projetos em laboratórios. Mas mesmo assim, eles ainda tem um mínimo de aulas sobre conteúdos gerais visando ampliar os horizontes de cada um.

4. Há um intercâmbio muito grande entre universidades e escolas! Seja com professores de EM/EF fazendo cursos de reciclagem constantemente nas unidades de ensino superior, seja com alunos realizando visitas a laboratórios das faculdades durante o período letivo ou tento as competições de ciências realizadas nos campi universitários, o aluno americano é exposto diversas vezes a uma realidade além das paredes da high school – não fica só no discurso de professores que desejam aprovação no vestibular A ou B.

5. A orientação vocacional se dá em dois níveis: carreiras e faculdades. Ao invés de só trabalhar em testes objetivos que dizem algumas habilidades dos estudantes, as escolas tentam orientar também para instituições de ensino superior que mais se adequam ao perfil do estudante – seja ele sócio-econômico, acadêmico, pessoal. Por exemplo, pegando um caso simples aqui da Califórnia e que envolve duas universidades de ponta: um aluno que que é totalmente contrário ao ambiente de política estudantil, nem de protestos, provavelmente não se sentiria bem na UC Berkeley, em contrapartida poderia se sentir em casa em Stanford, cujo foco é mais acadêmico.

6. Os alunos são ensinados a buscar resultados pensando em metas de médio e longo prazo. Diferentemente do sistema brasileiro em que uma prova define se você entra ou não na universidade, nos EUA a carreira acadêmica inteira do aluno é avaliada na hora da admissão no ensino superior. Assim, um aluno no final do ensino fundamental e no início de ensino médio já começa a pensar o que ele pode fazer para ser admitido na universidade dos seus sonhos. Ele aprende a planejar os passos da sua carreira e principalmente aprende que conquistas não brotam da noite para o dia, mas que são resultados de esforço contínuo, disciplina e perseverança. O mesmo se dá no ambiente de laboratorio, em que o desenvolvimento é algo que vem com o tempo e com o trabalho bem direcionado em uma boa ideia – não com um passe de mágica ou uma noite virada estudando.

Andraka

Assim, num ambiente em que há mais liberdade de escolha no ensino – seja em currículo, seja na escolha dos alunos – a tendência é termos excelentes resultados práticos. Obviamente o sistema não é perfeito, ainda apresenta muitos pontos para melhoria, mas tem atendido às necessidades americanas e, principalmente, tem ajudado a potencializar as habilidades dos alunos. Pra terminar, deixo um exemplo de caso de sucesso da colaboração entre escolhas de matérias, competições estudantis e um sistema que valoriza resultados: o jovem Jack Andraka (http://en.wikipedia.org/wiki/Jack_Andraka, http://goo.gl/CeLbqP), que desenvolveu uma nova modalidade de teste para detecção de câncer de pâncreas motivado por um projeto de feira de ciências (ISEF).


Por Davi Marco Lyra Leite, membro da Aliança pela Liberdade desde 2009, graduado em Engenharia Elétrica pela UnB (2/2012) e estudante de doutorado da University of Southern California.

Universidades e Pesquisa

Texto originalmente publicado no blog e no Facebook da Aliança pela Liberdade, entidade discente do Movimento Estudantil da Universidade de Brasília, em Novembro de 2013.

Dando seguimento a série de artigos falando um pouco sobre o sistema de educação estadunidense, agora vou falar um pouco sobre pesquisa e inovação. Esse tema será abordado em três textos distintos, o primeiro focando na organização das estruturas de pesquisa a nível universitário e de empresas, o segundo mostrando a progressão no sistema educacional desde o ensino fundamental até a pós-graduação – e como isso pode estar relacionado aos resultados que são alcançados -, e o terceiro falando das pesquisas no setor privado e nas agências de pesquisa (NIH, AHA, NSC, NCI).

USCOs Estados Unidos são referência mundial em pesquisa, desenvolvimento e inovação. Todas as áreas do conhecimento são contempladas com projetos e apresentam resultados notáveis reconhecidos internacionalmente, por exemplo, com laurações com o Prêmio Nobel, Medalha Fields, entre outros. Esse ano, por exemplo, 9 dos 13 laureados com o Nobel são americanos ou vinculados a universidades americanas.

Mas como se constroem resultados expressivos como esses? A resposta é complexa e envolve vários fatores que vão desde uma educação básica que oferece oportunidades diferenciadas, até uma estrutura competitiva de mercado que força a inovação e a busca por novas ideias, passando por menos intervenção do governo, mais segurança jurídica, mais respeito a propriedade intelectual e mais competitividade. Sendo que o centro desse processo está no ambiente universitário.

Primeiramente, vale-se destacar que existe uma diferença muito grande entre as universidades com foco em pesquisa e aquelas com foco em graduação. Normalmente, as instituições estaduais (como California State Universities, State University of New York, Florida State University, North Carolina State, etc) tem como seu foco a formação a nível de graduação – apesar de algumas delas apresentarem ótimos programas de pós. Vê-se essa distinção a partir do número de alunos matriculados em cada nível de formação (nesses casos, chega-se a taxas de 10 alunos de graduação para 1 de pós ou mesmo 20 para 1).

Em research universities como Harvard, Stanford, USC, MIT, Caltech, o número de alunos de pós-graduação normalmente é superior ao de estudantes de graduação, visto que o foco da instituição está na geração de conhecimento e não na sua reprodução/transmissão. Esses centros são reconhecidos principalmente pelos seus programas de pós, e as graduações – sempre de boa qualidade – não são as estrelas do portfolio. Essa mentalidade é muito diferente da que se vê no Brasil, em que a principal universidade brasileira, é reconhecida muito mais pelos seus cursos de graduação, e o número de graduandos é mais do que o dobro da pós – na UnB esse número é de quase 5 pra 1, sendo que provavelmente menos da metade dos pós graduandos o são em tempo integral (diferentemente da realidade americana, onde quase a totalidade dos alunos de doutorado tem como sua única obrigação a pesquisa na universidade).

Continuando, como explicado no texto anterior, a permanência de um professor no ambiente universitário está relacionada entre outros a sua pesquisa, sua produtividade e seu mérito. Desde o professor recém chegado a universidade e que está buscando o seu tenure até o professor mais experiente que foi agraciado com algum prêmio, todos orientam alunos e todos coordenam algum tipo de laboratório ou grupo de pesquisas.

Vale lembrar que a pessoa que só deseja dar aulas, não se candidata a uma professorship – nem seria contratada para tal. Ela fica com a função de lecturer ou de adjunct professor, tendo contratos definidos com maior ou menor tempo de duração. Sua permanência na posição de docente vai depender de vários aspectos, em especial o número de alunos matriculados nas disciplinas que serão ministradas e a quantidade de turmas. De forma similar, a pessoa que deseja fazer só pesquisa se candidata a uma posição de research assistant professor, não necessitando ministrar aulas, ou vai trabalhar na indústria (que é o foco de 80% dos egressos dos programas de doutorado com foco em ciência e tecnologia – STEM). Normalmente um research professor trabalha associado a um laboratório ou a um centro de pesquisa da universidade, sendo que nem sempre será ele o coordenador dos projetos desenvolvidos. Seu salário é proveniente dos projetos a que está vinculado e quando não há nenhuma linha de pesquisa ativa, a sua posição docente é extinta.

Além desses dois profissionais, as universidades contam com alunos de gradução (geralmente no último ano) e de pós contratados como graders e teaching assistants. Ou seja, eles são o apoio didático do professor, corrigindo provas e trabalhos, ou ministrando aulas extras (chamadas discussions) cujo foco é a aplicação de exercícios e/ou a revisão de conteúdo. Em troca, eles recebem a gratuidade em disciplinas que estão cursando e, em alguns casos, um salário da universidade.

Assim, essa estrutura dá liberdade aos assistant, associate e endowed professors para focar em suas pesquisas, submissões de propostas de projetos e de financiamento (grants),  orientações de alunos e alguma matéria que tenha de ministrar – sendo que o tenure serve para garantir a possibilidade de desenvolver linhas de investigação controversas (que vão contra o senso comum) ou que demandam mais tempo até a obtenção de resultados. Sendo que a sua principal atividade é coordenar os grupos de pesquisa.

Os grupos de pesquisa normalmente são composto por um ou mais alunos de pós-doutorado (alguém que já tem o título de doutor, mas que está buscando um maior aperfeiçoamento em uma determinada linha de pesquisa), cinco a dez doutorandos (dependendo do tipo de pesquisa, do tamanho da universidade e da infraestrutura, esse número pode variar muito) e, às vezes, de alunos de graduação (quantidade variável conforme a complexidade dos projetos). Vale lembrar que as posições de pós-doutorado são condicionadas a financiamento e não são mais posições de titulação (não existe o diplominha de postdoc), sendo que muitas delas são bancadas por entidades externas a universidade – como no caso das vagas de postdoc que o governo brasileiro tem financiado via programa Ciências sem Fronteiras.

Cada grupo tem uma linha geral definida, que pode ser desde o uso de uma ferramenta comum de trabalho (raios-X, ressonância magnética, robôs, redes de computadores), ao estudo de campos da ciência e da sociedade (como física de partículas ou antropologia social). Dentro dessa linha geral, existem subáreas que serão trabalhadas pelos research professors, postdocs – auxiliares diretos do professor diretor do laboratório – e pelos alunos em processo de formação.

Normalmente os grupos de pesquisa também atuam em colaboração com outros laboratórios da mesma universidade, do país e mesmo internacionais, além de empresas e centros de tecnologia. O meu grupo de pesquisa, por exemplo, desenvolve projetos em parceria com a UCSD, com o Children’s Hospital LA, Stanford e University of Toronto. Grandes consórcios ou convênios de pesquisa geralmente tem mais facilidade de receber financiamento externo por meio de grants das agências de fomento. Grandes projetos em áreas como câncer, AIDS, tem envolvimentos ainda maiores de múltiplas instituições, com a criação de redes de pesquisa específicas para essas linas. Um exemplo é a Physical Sciences Oncology, do National Institute of Cancer (http://physics.cancer.gov/), que é um convênio entre 12 instituições de pesquisa para o estudo de aspectos relevantes a tumores e seus tratamentos. Assim, a troca de experiências e dados, leva a uma visão mais completa da pesquisa e propicia a obtenção de melhores resultados em menos tempo.

Ressalto que não só os professores, mas os alunos de doutorado são incentivados a correr atrás de diversas formas de financiamento, aplicando para fellowships que são concedidas por instituições públicas ou privadas. Esses financiamentos externos servem para enriquecer o currículo e ampliar as redes de contato. É importante salientar que os estudantes tem a sua produção acadêmica constantemente avaliada pelo orientador e pelas entidades que pagam os seus salários (stipends), sendo que podem ser demitidos caso os resultados não sejam satisfatórios. Além disso, o próprio processo de admissão no programa de PhD visa identificar potenciais pesquisadores, que vão se manter produtivos durante os anos de trabalho e que vão gerar resultados positivos para universidade e orientadores.

Aliam-se a essa valorização do mérito e a exigência de um trabalho bem feito, as constantes conferências e possibilidades de viagens para apresentação de seminários, além o apoio monetário e físico das universidades e das agências de fomento, a segurança jurídica gerada pelas propriedades intelectuais e a possibilidade de ver os produtos das pesquisas chegando ao mercado e gerando impacto social. Dessa forma, gera-se um ambiente de busca por resultados em que os alunos querem conseguir sua titulação e precisam de orientadores e do pagamento para se manterem no programa; os postdocs querem conseguir algum emprego fixo seja na indústria ou na academia; e os professores querem publicações e mais financiamento para continuar podendo empregar alunos e trabalhar com aquilo que eles escolherem, mas que promove a colaboração e o autodesenvolvimento.

Nesse cenário desafiador, em que o objetivo não é simplesmente vencer uma corrida, mas solucionar um problema e gerar resultados para sociedade, tem-se uma realidade que incentiva bons trabalhos. Com um balanço de prêmios e exigências, a resposta é dada com pesquisas de ponta e reconhecimento internacional.

Por Davi Marco Lyra Leite, membro da Aliança pela Liberdade desde 2009, graduado em Engenharia Elétrica pela UnB (2/2012) e estudante de doutorado da University of Southern California.