Economia, Política e Brasil

Pavilhão da República visto do Palácio do Planalto. Fonte (http://static.panoramio.com/photos/large/15388495.jpg)
Pavilhão da República visto do Palácio do Planalto. (Fonte : http://panoramio.com)

As pessoas que me conhecem há mais tempo sabem que eu tenho um posicionamento que chega a ser radical em alguns tópicos relacionados a política. Sou favorável desde pequeno a um Estado mínimo (quanto menor, melhor — mas acreditando que a anarquia é um experimento só teórico), favorável a um governo eficiente e defensor de baixos impostos (quanto mais simples e transparentes, melhores). Acho que o Estado pode fazer algumas coisas — principalmente relacionado a segurança, respeito a propriedade e justiça –, mas quem ajuda mesmo as pessoas são outras pessoas e não um ente imaginário que ganhou poder para substituir a religião no período posterior a Revolução Francesa e para manter os arroubos autoritários dos que iam contra o antigo regime. Acho que a política mais pura é aquela que se faz no dia-a-dia em relações interpessoais, em relações trabalhistas diretas, em movimentações de pessoas e em exigências de liberdade, não aquela feita numa eleição ou usando os poderes constitucionais para subordinar os outros aos seus interesses.

Por causa da minha educação, em uma família que mistura conservadorismo social com social-democracia em termos de governo, eu achava que muitas das coisas que aconteciam de errado no Brasil eram culpa das administrações e não do modelo. Por muitos anos eu imaginava um mundo perfeito como o dos países nórdicos descrito pelos meus professores da escola em que as pessoas não precisavam se preocupar com sua saúde, sua educação, com sua morte, pois o governo ia tomar conta de tudo. Achava que o que faltava para o mesmo acontecer no Brasil eram melhores políticos e gestores, por causa disso, sempre me importei em tentar entender a situação política do país e o que poderia ser feito para mudá-la. Acreditava que colocando as pessoas certas no poder, poderíamos ter o verdadeiro país do futuro — cheguei a cogitar me candidatar nos meus idos de Ensino Fundamental.

Entretanto, conforme eu estudava história, via que essa minha ideia era a mesma defendida por todos os revolucionários durante os séculos que passaram. Fui vendo que todos os regimes sanguinários que surgiram se deram por causa de pessoas que acreditavam que os detentores do poder seriam capazes de mudar o mundo para melhor, que conseguiriam construir o paraíso na Terra, e, contraditoriamente a minha idealizada sanha democrata, aquelas pessoas eram os “melhores” representantes do povo — pois haviam sido os escolhidos por ele e, por isso, eram aqueles que os representavam.

Tinha muita coisa de errado nisso…

A democracia não era perfeita. O poder de “ferrar” a vida de todos ser dado para 50% + 1 dos votantes não me parecia justo. O Estado podia a qualquer momento ser tomado por pessoas que iriam contra as aspirações de uma sociedade mais justa e de mais oportunidades. O Governo servia apenas para tiranizar e extorquir a população, sem ser responsável pelas atitudes de seus agentes e sem se responsabilizar pelo futuro dos mais inocentes.

Além disso, a minha idealização do Estado cuidando das coisas ia de encontro com a minha paixão por uma economia livre, em que eu pudesse comprar o que quisesse, pudesse viajar para onde quisesse, pudesse trabalhar na área que bem entendesse. O Estado controlando a economia levava a situações como a crise de 29, em que para manter o preço do café alto para os produtores brasileiros, o governo comprava e queimava as sacas excedentes, criando uma escassez relativa que permitia que os influentes tirassem mais dinheiro da população — mas graças a baixa lucratividade da medida governamental, pessoas seguindo o regime de mercado decidiram investir na indústria, o que melhorou um pouco a situação econômica do país.

Fui vendo também que o tão famigerado mercado — odiado por alguns professores que tive — servia para enriquecer as pessoas na bolsa de valores (eu comecei a assistir Conta Corrente na Globo News aos 13 anos de idade) e servia para direcionar os recursos excedentes para áreas que no futuro poderiam ser interessantes, gerando inovação. Para o mercado não fazia diferença se a pessoa era branca, preta, indígena, desde que ela tivesse motivação de trabalho, um mínimo de capital e uma vontade de arriscar. Enquanto isso, os “investimentos” do governo eram feitos em áreas que levariam sempre a votos, seja com políticas de transferência direta, seja com investimentos em infraestrutura — tudo sempre focando na próxima eleição.

Eu nunca entendi o porquê de manter as pessoas pobres no sertão do Nordeste prometendo sempre diversas coisas, ao invés de deixá-las a migrar para as cidades, onde a vida pode ser difícil, mas em que é bem mais fácil conseguir qualquer coisa: desde uma comida a um atendimento médico de emergência, desde um emprego (que não depende tanto da sazonalidade das chuvas) a uma escola um pouco menos pior para os seus filhos. Parecia que o interesse estava de um lado em manter o pobre miserável para que as promessas tivessem mais impacto e do outro em restringir o acesso dele ao mercado formal, seja de trabalho, seja de consumo. Isso tudo já nos idos dos anos 2000, depois que o operário que ia salvar o Brasil tinha assumido a presidência.

Quando eu comecei a estudar mais de economia, motivado pelos comentários do Guto Abranches e pelas matérias do Eduardo Grillo no Pelo Mundo — também da Globo News –, fui vendo o quê o Plano Real tinha feito para o país e entendi o carinho que os meus pais nutriam pelo FHC — minha compreensão nesse tópico melhorou ainda mais depois que eu aprendi o nome de Gustavo Franco e comecei a ler seus artigos. Meus pais, diga-se de passagem, passaram perrengues com os planos Verão e Collor, viram o poder de compra da família reduzido absurdamente por vários anos, tendo que correr para o mercado assim que saía o salário antes do homem da máquina alterar os preços de tudo e precisando fazer estoque de coisas para não faltar comida. Ou seja, não éramos nem de longe a família burguesa atacada com tanta sanha pelo PT e pelos outros “defensores dos pobres”.

Assim, eu percebi que a melhor coisa que um governo poderia fazer para qualquer pessoa era permitir que ela conseguisse planejar o dia seguinte, que ela soubesse que a sua moeda vai valer alguma coisa e que o seu trabalho vai continuar custando o mesmo para o empregador em termos monetários — descontando-se o aumento de produtividade, logicamente — hoje ou amanhã, evitando as injustas demissões por causa de deterioração financeira causada pelo governo. Coisas que uma dona de casa sabe, que um mestre de obra entende, que mesmo uma criança de cinco anos e que ganha mesada para comprar balinhas consegue abstrair. E não foi por acaso que o Plano Real tirou tantos milhões da pobreza…

Depois disso, vi que até mesmo o operário escolheu seguir um modelo mais austero de não gastar mais do que se ganha e com isso ele foi capaz de manter o sistema funcionando, segurando o famigerado tripé macroeconômico do Armínio Fraga nos primeiros anos do seu governo. O médico de Ribeirão Preto empossado Ministro da Fazenda foi tão ortodoxo quanto os economistas da PUC-RJ e da FGV, e, junto ao banqueiro internacional goiano, conseguiu dar uma credibilidade a política monetária do país que era impensável quando dos discursos do ex-sindicalista a presidente durante os anos 90. O país não degringolou como eu achava que iria, sorte dos brasileiros que tinham instituições sólidas — e sorte minha que não precisei tentar fugir para Portugal, como eu brincava com meus pais e avós que faria.

Meses se passam em 2003 e o governo parecia estar funcionando, a política de austeridade fiscal do médico e do banqueiro davam resultados, o Plano Real se mostrava maduro e tirava mais e mais gente da pobreza ao permitir que as empresas voltassem a contratar e que a economia crescesse. O programa social central do governo, chamado Fome Zero, havia sido jogado para escanteio por falta de resultados, e agora o foco estava no reestruturado Bolsa Família, que aparentava melhores resultados e mais eficiência — e só foi possível por causa da estabilidade econômica conseguida a duras penas nos anos 90.

Entretanto, o governo crescia a cada dia, ministérios surgiam para atender aliados políticos, agências aumentavam cargos e perdiam seu propósito fiscalizatório, mais e mais se ouviam histórias de funcionários públicos padrão Mendonça, de “A Grande Família”: trabalham quase nada, mas ganham horrores de dinheiro vindo dos pagadores de impostos. Isso não me cheirava bem. Não conseguia concordar com isso. Não entendia porque era necessário aumentar em 50% o número de cargos públicos, até porque isso significaria menos dinheiro para as pessoas poderem viver suas vidas.

Em Setembro de 2004, meu tio Paulo, juntamente com Sérgio Pardellas e Hugo Marques, escreve uma reportagem intitulada “Planalto paga mesada a deputados“. Era o início das denúncias sobre o mensalão e da caça às bruxas (leia-se ataque ao mensageiro e não à mensagem). O presidente da câmara começa um processo de intimidação aos jornalistas, tentando abafar a história — inclusive com queixas criminais contra eles. Alguns meses depois, Roberto Jefferson bota a boca no trombone e estoura o escândalo. Nisso eu já estava totalmente desacreditado com o governo, mesmo que nunca tivesse apoiado Lula e seu partido, o qual imaginava ser no mínimo tão sujo quanto qualquer outro por causa dos escândalos como o caso Celso Daniel, eu via que o governo estava fazendo algumas coisas boas para a população.

Com o mensalão, eu perdi qualquer pingo de resignação que poderia ter com o PT no poder. Com os processos contra o meu tio, eu perdi a capacidade de acreditar na dignidade daqueles corruptos e corruptores — por mais que meu tio ainda defendesse o voto neles pelos supostos ganhos sociais alegadamente atribuídos ao partido. O que eu vi ali não foi um atentado ao erário, mas uma afronta a democracia e a república onde o ente no poder faz de tudo para cooptar os adversários. E quando eu fiquei sabendo que os planos da liderança petista eram de se manter na presidência por no mínimo 20 anos, minhas esperanças para o país diminuíram ainda mais. Eu vi que o modelo democrático era tão frágil e ruim, que a única justificativa para sua manutenção é aquela dada por Churchill: os outros são piores.

Quando FHC e a oposição decidiram deixar Lula sangrando nas cordas a espera da eleição seguinte ao invés de investir pelo impeachment do presidente — lembrando que por coisa muito menor Collor foi deposto em 92 –, eu fiquei estarrecido. Não é possível deixar que uma coisa dessas aconteça: tem de tirar esse pessoal logo do governo! Veio 2006, e Lula foi reeleito na base da demagogia populista com um discurso que atrelava ganhos sociais a sua gestão e não à política econômica que foi mantida, com uma campanha de difamação contra o candidato Geraldo Alckmin baseado em terrorismo sobre privatizações, e com mentiras deslavadas para esconder a corrupção do governo e para atacar seu antecessor. Nesse momento, minha crença sobre a “escolha ótima” da população foi definitivamente abalada.

Ao mesmo tempo que tudo isso acontecia no país, eu tinha contato com mais tópicos de filosofia, sociologia, ciência política e economia. Nesses estudos das ciências humanas, eu conheci melhor Marx, Rousseau, Bacon, Montesquieu, Smith, Ricardo. Passei a admirar os três últimos, ser indiferente com aquele que tem nome de comida e a detestar os dois primeiros. Eu me perguntava (e ainda me pergunto): Como alguém pode em sã consciência defender que o meio determina o comportamento das pessoas? Esse “estudioso” nunca se deu ao trabalho de olhar a própria sociedade e ver que mesmo os nascidos em berço de ouro, com a melhor das educações do mundo, criados sob os mais valorosos códigos morais podem ser tão deliquentes como aquela pessoa nascida no gueto pode ser pura? E como o barbado alemão não conseguia enxergar que pessoas diferentes valorizam coisas diferentes, que tem produtividades diferentes, que tem merecimentos diferentes e que tudo aquilo que é de “comum” propriedade tende a ser destruído por negligência? Ele não conheceu a tragédia dos comuns?? Muito provavelmente ele não fazia ideia do que seria um banheiro público tratado como propriedade coletiva…

O pior foi ver que os filósofos que eu detestava eram idolatrados pela dita inteligência com quem eu tinha contato. Professores defendiam o socialismo ou o determinismo social de Rousseau e sua teoria do bom selvagem. Havia muito relativismo e tentativas de não se incentivar a diferenciação, o crescimento individual. Até mesmo pessoas dentro do movimento espírita chegavam a considerar que essas ideias valiam alguma coisa. Com isso me sentia desamparado quando de conversas sobre política.

Filosofia a parte e voltando mais para o campo político-econômico, eu já sabia que a abertura comercial era benéfica para as pessoas: mais produtos, mais opções, menores preços e mais qualidade. Concorrência sempre beneficia o consumidor, é só comparar uma praça de alimentação com um comércio local e ver qual delas tem mais opções e gera mais retorno. Já sabia que o FMI e o Banco Mundial não são os espoliadores da sociedade — esse papel é do governo. Já sabia que o padrão ouro era bem melhor do que a fiat currency — obrigado guia de estudos do IMF da Sinus 2006 por me fazer ler sobre a conferência de Bretton Woods. Mas eu ainda não tinha a total dimensão da influencia da economia na sociedade, o que veio após aprofundar meus estudos nos tópicos inicialmente debatidos em Introdução a Economia em 2008 e Introdução a Sociologia em 2009.

Os aspectos de micro e macro economia estavam diretamente relacionados a modelos sociais como os de Weber e Marx. As implicações das ações governamentais nas trocas voluntárias de indivíduos tendiam a sempre ser danosas, independentemente do dono dos meios de produção. Um governo que tenta restringir o acesso ao mercado e limitar as trocas — seja por imposição de preços, seja por regulações, seja por coerção direta — sempre prejudica a sua população ao diminuir o número de produtos a que eles tem acesso e ao impedir que crescimento econômico ocorra devido a trocas mutuamente benéficas. Assim, a liberdade econômica implica diretamente em aumento da qualidade de vida de uma sociedade, algo que eu fui comprovar depois ao ver os diversos estudos da Heritage Foundation e do Fraser Institute.

Nisso, eu vi quão perigoso um programa de assistencialismo social feito por tempo indeterminado pode ser. Eu vi como políticas protecionistas só beneficiam as empresas e os empregados de setores com força política para fazer a nação pagar por sua improdutividade (vide a lei a Informática e os monopólios governamentais). Eu vi como cotas raciais ou sociais podem gerar os mesmos incentivos perversos que o protecionismo, caminhando para a dependência e não resolvendo situação nem a curto, muito menos a longo prazo — na verdade gerando até outros problemas sociais a longo prazo. Eu vi como saúde e universidade públicas gratuitas serviam só para beneficiar uns poucos, seguindo o modelo de custos dispersos para benefícios concentrados, e passei a achar o processo cada vez mais injusto — me arrependo até hoje de ter apoiado o Obama por causa de propostas nessa linha.

Quando eu entrei no movimento estudantil nos meus anos de UnB, comecei a ter contato com pensadores mais liberais como Mill, Bastiat e Tocqueville, mesmo que fosse só em citações dos meus amigos quando da escrita de algum documento. Mas também passei a ver que existiam mais pessoas como eu, que buscavam um país mais livre, com menos coitadinhos e mais trabalho, com menos esmola e mais cooperação, com menos discurso e com mais ação. Esse convívio foi importante pois me instigou a estudar mais, a crescer como acadêmico, como debatedor e como pessoa. Ele também me mostrou que muitas pessoas que defendem com a mesma convicção pontos contrários aos meus não o fazem por falta de caráter ou ingenuidade, mas por valores diferentes ou por falta de informações. Se eu acho a liberdade o elemento mais importante, outros podem achar que são as igualdades — algo quase diametralmente oposto.

Nesse processo, comecei a ter discussões mais filosóficas com meu pai — Marco. Ele, que estudou economia e direito quando mais novo e que partilha dos mesmos valores conservadores que eu — apesar de não ser um livremercadista tão convicto –, me dava luz em alguns pontos mais espinhosos, me fazia refletir e me conduzia para uma posição mais ponderada. A formação com mais Schumpeter e menos Smith resultava em um entendimento de que o governo pode ter um papel a desempenhar no processo, sempre gerando excelentes conversas. Fora o quê, ele sempre levava as discussões para o aspecto moral por trás da coisa, tentando não ver o jogo como números, mas como melhoria de condição. Nesse sentido, acabei procurando economistas que tinham uma abordagem voltada a aspectos sociais dentro da visão que eu entendo correta, como Thomas Sowell e mesmo Milton Friedman. A Escola de Chicago com suas “second best solutions” apresentou sempre alternativas razoáveis e que procuravam ampliar a liberdade, ao mesmo tempo que não esqueciam das pessoas com mais dificuldades.

O mesmo acontecia com as conversas com o meu tio, que está bem mais a esquerda do que toda a família — algo que eu nunca entendi o porquê — e me passava a necessidade do jogo político e do entendimento do sistema como “a arte do possível” defendido por Bismarck. Era sempre divertido saber das notícias em primeira mão e ter a melhor fonte dos bastidores do congresso e do planalto a uma ligação. Além disso, ele sempre foi alguém com quem eu poderia conversar por horas sobre futebol, literatura e cinema com a mesma paixão com que discutíamos sobre o congresso. Ele ainda me deu o livro Sabres e Utopias, de Vargas Llosa, cuja leitura consolidou a minha mudança de um social-democrata pró-mercado para um liberal-conservador.

Mas voltando ao caso do Brasil e ao governo, em 2008-09 tivemos a crise. O presidente falou que ia ser apenas uma marolinha, mas com a equipe econômica toda modificada, não demorou muito para que as famigeradas políticas anticíclicas viessem para ficar e o governo finalmente desandasse para a direção que eu temia. Crédito foi liberado usando os bancos públicos para pessoas sem condições de pagar, com garantias de recuperação do capital a partir dos impostos — que cobririam os rombos quando necessário. Reduziu-se a tarifação para setores influentes, enquanto o resto do país pagava a conta para manter a arrecadação em níveis similares e para manter a improdutividade protegida. As contas públicas começaram a ficar diferentes — ainda havia o respeito ao tripé, mas o câmbio já passava a ser mais vigiado.

Em 2010 veio a nova eleição. Seria a chance de ver um debate de propostas e um candidato da oposição que pudesse criticar os desmandos do governo federal. O resultado, entretanto, foi um debate entre dois candidatos que se colocavam como os melhores continuístas para o sistema implementado. O tucano que gosta de intervir na economia e a petista desenvolvimentista. Com o operário coordenando a venda do dito poste, a ex-ministra da casa civil foi eleita mesmo em meio a escândalos de tráfico de influência e má gestão. O povo escolheu um caminho de mais intervenção no país pelos “arautos” do desenvolvimento e novamente a minha fé na democracia foi pelo ralo.

Veio a “nova matriz econômica”, que lembra e muito a política dos anos 70, e com ela a volta da inflação que mesmo em níveis “oficiais” mais baixos que na década anterior já apresentava ritmo de subida. A presidente decidiu comprar uma briga contra fundamentos econômicos e baixou os juros na marra — segundo o discurso ela estava lutando contra o malvado capital financeiro que explora os pobres. Ela ganha o primeiro round, mas apanhou o resto da luta inteira — knock out deflagrado pela economia, para o bem do país. Para esconder todas as besteiras, o governo começou a usar a chamada contabilidade criativa: tira do balanço de pagamentos os títulos que só vão ser cobrados daqui uns anos, adiciona receitas que ainda não entraram, mas que fazem parte do esperado; mexe no fundo soberano para fazer superávit; emite títulos da dívida para financiar os bancos públicos e esconde essas movimentações com malabarismos contábeis; e assim por diante.

Nessa história toda, o povo saiu perdendo. De início tudo parecia bonitinho: crédito barato, conta de luz com preço controlado, gasolina com preço congelado. Mas em poucos meses as medidas foram cobrando o seu preço: o controle de preços levou a endividamento da Petrobras e a perda de capacidade de investimento da companhia e das empresas energéticas. O aumento do consumo de luz — que estava artificialmente barata — levou a uma diminuição dos reservatórios que atingiu níveis críticos e forçou o governo a usar as térmicas, que produzem energia mais cara. E a inflação dos serviços e de outras áreas foi aumentando, devido a reduzida oferta e ao excesso de moeda em circulação por causa do crédito estimulado pelo governo, do excesso de gastos da máquina e do endividamento público. Com isso, os pobres foram perdendo o poder de compra e sofrendo a mesma ressaca que a economia passou na década de 80.  Se eu já não acreditava que o governo poderia ser sério, essa gestão consegue me mostrar certo a cada dia que passa.

O pior dessa história toda é que o governo não tem a hombridade de assumir a culpa pelas medidas desastradas que tomou e fica inventando fantasmas do passado como uma crise que já acabou ou terrorismo eleitoral que não existiu, além de usar estatísticas maquiadas de emprego para fingir que está tudo bem ou impedir a divulgação de resultados que não interessam aos mandatários. 2015 vai ser um ano penoso por conta de todo o ajuste fiscal que precisará ser feito. Torço que ele seja feito com corte de gastos, corte de programas avulsos que não ajudam ninguém (como o bolsa empresário) e redução da intervenção estatal na vida das pessoas…

Isso sem falar de toda a perda da estabilidade institucional que aconteceu durante o governo do partido dos trabalhadores. Ministérios, agências reguladores, empresas públicas e mesmo o Supremo Tribunal Federal foram cooptados por militantes. As indicações não atendiam a critérios técnicos, mas políticos: quem consegue garantir mais facilidades para o partido e atuar melhor no plano de manter o PT no poder por pelo menos 20 anos? Com isso, em 12 anos os serviços pioraram, mesmo tendo aumento de aportes oriundos de maior arrecadação tributária — tanto relativa, como absoluta. A ineficiência do governo voltou a perturbar e as incertezas começaram a surgir. As instituições que pareciam sólidas em 2003, se mostraram tão frágeis como as argentinas da década de 90.

O governo então tentou usar um movimento político municipal para virar um Estado contra seus opositores. Não deu certo. Ele perdeu o controle e incentivou o quebra-quebra pelo país nas famigeradas jornadas de junho, um dos maiores engodos dos últimos anos da recente democracia brasileira. Nisso, eu perdi qualquer respeito que ainda nutria pela presidente — o seu partido para mim já era de uma insignificância sem par, só comparável à dos comunistas e dos socialistas do Século XXI, e a consideração a seriedade das suas políticas em si nunca existiu.

Agora, nessa eleição, o mesmo partido que vem a 12 anos detonando o país com medidas autoritárias e populistas quer ser eleito para mais 4 anos. A campanha se resume no medo! Se você, pobre ou de classe média, que recebe auxílio do governo para comer, estudar, morar e se locomover não votar no partido, tudo isso que existe será tomado pelos imperialistas, classistas, illuminatis, seres malvados das sombras. Se você não votar no partido, você estará sendo um mal agradecido por tudo isso que foi feito para si. E os ataques pessoais e institucionais continuam. E a presidente não trabalha há meses. E os cofres públicos são assaltados para manter grupos de interesse felizes. E a população sofre com um nível ridículo de campanha eleitoral, com debates pobres em conteúdo e com uma presidente que não sabe fazer uma subtração, quanto mais conseguir gerenciar um país.

Para se manter no poder, o governo ainda tenta tomar a superioridade nas virtudes. São eles os únicos defensores dos pobres, das mulheres, das minorias. E o pior é ver que muita gente acredita nisso por não entender que as políticas públicas que são adotas com “boas intenções” tem efeitos perversos e que vão muitas vezes contra aqueles que se deseja proteger. O único jeito de se garantir direitos individuais é diminuindo a coerção que existe sobre eles e não tirando direitos alheios para “valorizar” um determinado grupo…

Por essas e por outras que eu sou contra esse bando de criminosos que está a frente do governo. Voto com minha consciência tranquila no candidato da oposição — que eu queria como concorrente a presidente desde o pleito de 2010 — não só por acreditar que ele vai fazer melhor que o atual status quo e por ele ter um melhor histórico de gestão, algo que será essencial para enfrentar a penúria do ano que vem, mas para ver o PT fora do poder.

As propostas de Aécio são melhores do que as petistas, apesar de ainda estarem muito distantes do país que eu quero e que vejo como o melhor para os brasileiros. Aécio infelizmente não vai privatizar os bancos públicos, nem a Petrobras, nem a Eletrobras, nem as comunicações, nem os transportes, não vai acabar com o Bacen nem com o BNDES. Ele vai investir mais dinheiro em sistemas falidos de educação e saúde, que deveriam ser abolidos e substituídos pelo mercado, associados a vouchers para garantir o acesso àqueles de baixa renda. Mas pelo menos ele tem histórico de ter conseguido melhorar as coisas ruins que aconteciam, diminuindo a fatia abocanhada pelo governo da renda das pessoas. Ele monta equipes técnicas que conseguem diminuir o aparelhamento das estruturas. Voto em Aécio porque ele tem a seu lado Armínio Fraga, Mansueto Almeida, Gustavo Franco, Antonio Anastasia, Mônica de Bolle, Bernardinho e outras tantas peças de uma equipe especialmente boa e que pode aos poucos reduzir os gargalos que o país tem ao diminuir o tamanho do Estado principalmente nas áreas em que ele só atrapalha. Isso por mais que eu não acredite que ele realmente vá cortar muitos impostos e gastos, apesar de acreditar que ele fará um sistema um pouco menos confuso e perverso.

Não voto por ter retomado a fé na democracia em si, mas por acreditar que há finalmente uma boa opção para votar — e mesmo na ausência de uma boa opção, sempre dei meu voto crítico no menos pior.

Brasão da República (Fonte: Flickr)
Brasão da República (Fonte: Flickr)

Acho que enquanto os brasileiros não aprenderem que o Estado está lá só para garantir a sua proteção física e jurídica e não para controlar cada aspecto das suas vidas, não será possível viver na sociedade que se deseja. O Brasil é desigual não por maldade dos brasileiros, mas em grande parte por causa de um governo que não deixa as pessoas buscarem o que lhes é de desejo e que espolia a todos para privilegiar alguns. Enquanto um deputado e um senador forem avaliados pelo número de leis que eles fazem — restringindo com isso a liberdade de todos ao confiscar dinheiro em impostos ou regulamentar o dia-a-dia das pessoas –, o congresso não irá para frente. Enquanto ao presidente couber escolher o rumo da nação e não aos brasileiros, o país ficará preso no tempo dependendo sempre da chegada de um salvador da pátria. Enfim, enquanto o indivíduo estiver submisso ao coletivo, nem liberdade, nem igualdade prosperarão na nossa terra.

O mercado pode não ser igualitário, mas ele não consegue extorquir o dinheiro de ninguém que não queira realizar a troca voluntária. Apenas o governo pode te obrigar a pagar por coisas que você não quer, para pessoas que não são competentes determinarem como elas serão distribuídas. Para alguém que tem a liberdade como valor fundamental, não é possível defender que o governo seja o agente de mudança — apesar de ser possível acreditar que existem governos melhores e piores. Então nesse sentido, eu tento dar a minha parcela procurando um Brasil que consiga vislumbrar um pouquinho mais de liberdade de iniciativa, de expressão, de imprensa, de empreendimento, de política e de vida.

One thought on “Economia, Política e Brasil

  1. Prezado Sr David Lyra Leite
    Li cuidadosamente seu texto ” Economia, Política e Brasil. É sempre estimulante ter contato com pessoas que levam nosso país a sério e que estão empenhadas em debater os problemas que afetam a nós brasileiros. É estimulante também o interesse que o Sr demonstra pela leitura de respeitados autores nas áreas de economia e política. Embora seja acadêmico percebe-se sua condição de leigo nessas áreas, mas certamente um leigo bem informado. Eu mesmo não trabalho nessas áreas, sou como o Sr, um interessado. No entanto não creio que qualquer pessoa com um mínimo de bom senso pense em desqualificar uma troca de ideias pelo simples fato de não se dar entre especialistas.
    O meu comentário a respeito de seu texto nào está dirigido ao conteúdo. Interessou- me antes de mais nada a forma com que o Sr desenvolveu suas idéias. Elas me perecem dizer respeito ao que poderia ser chamado um processo evolutivo. No início, um conjunto de ideias e convicções que orientavam escolhas, caminhos e posições na sua vida de cidadão. No que poderia ser considerado um segundo tempo do texto foram sendo expostas as transformações pelas quais passou, determinadas por suas experiências, leituras, interlocuções com pessoas que julgou qualificadas e, suponho, principalmente pelas suas reflexões. Num terceiro momento o Sr passa a informar o leitor sobre as descobertas que fez no decorrer dessa evolução e de transformações que parecem tê-lo afetado profunda e positivamente. No entanto, os paràgrafos que se seguem modificam o tom do seu escrito, que passa a adquirir uma feição exortativa, diria quase missionária. É como se o Sr tivesse tido mais do que um processo evolutivo, uma iluminação reveladora de um conjunto de verdades que lhe conferiam o dever de transmiti-las aos seus leitores que tenho certeza de serem muitos.
    Certamente não foi sua intenção “arrebanhar fiéis” para suas concepções atuais, mas na forma como foi elaborado o escrito, um leitor menos avisado poderia lê-lo como uma espécie de pregação.
    Se meu comentário lhe for de alguma utilidade permita-me uma sugestão. Terminar seu escrito com uma espécie de roteiro de leituras de livros dos autores referidos e outros mais, além de periódicos diários, semanais, mensais cuja leitura propicie às pessoas fazerem um percurso inspirado no seu e assim se apropriarem das ideias das quais uma grande parte da população se encontra carente. Apreciaria muito se me sugerisse alguns títulos de livros dos autores, mencionados e mesmo outros que achar recomendáveis.
    Atenciosamente
    Osvaldo De Vitto

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