Universidades e Pesquisa

Texto originalmente publicado no blog e no Facebook da Aliança pela Liberdade, entidade discente do Movimento Estudantil da Universidade de Brasília, em Novembro de 2013.

Dando seguimento a série de artigos falando um pouco sobre o sistema de educação estadunidense, agora vou falar um pouco sobre pesquisa e inovação. Esse tema será abordado em três textos distintos, o primeiro focando na organização das estruturas de pesquisa a nível universitário e de empresas, o segundo mostrando a progressão no sistema educacional desde o ensino fundamental até a pós-graduação – e como isso pode estar relacionado aos resultados que são alcançados -, e o terceiro falando das pesquisas no setor privado e nas agências de pesquisa (NIH, AHA, NSC, NCI).

USCOs Estados Unidos são referência mundial em pesquisa, desenvolvimento e inovação. Todas as áreas do conhecimento são contempladas com projetos e apresentam resultados notáveis reconhecidos internacionalmente, por exemplo, com laurações com o Prêmio Nobel, Medalha Fields, entre outros. Esse ano, por exemplo, 9 dos 13 laureados com o Nobel são americanos ou vinculados a universidades americanas.

Mas como se constroem resultados expressivos como esses? A resposta é complexa e envolve vários fatores que vão desde uma educação básica que oferece oportunidades diferenciadas, até uma estrutura competitiva de mercado que força a inovação e a busca por novas ideias, passando por menos intervenção do governo, mais segurança jurídica, mais respeito a propriedade intelectual e mais competitividade. Sendo que o centro desse processo está no ambiente universitário.

Primeiramente, vale-se destacar que existe uma diferença muito grande entre as universidades com foco em pesquisa e aquelas com foco em graduação. Normalmente, as instituições estaduais (como California State Universities, State University of New York, Florida State University, North Carolina State, etc) tem como seu foco a formação a nível de graduação – apesar de algumas delas apresentarem ótimos programas de pós. Vê-se essa distinção a partir do número de alunos matriculados em cada nível de formação (nesses casos, chega-se a taxas de 10 alunos de graduação para 1 de pós ou mesmo 20 para 1).

Em research universities como Harvard, Stanford, USC, MIT, Caltech, o número de alunos de pós-graduação normalmente é superior ao de estudantes de graduação, visto que o foco da instituição está na geração de conhecimento e não na sua reprodução/transmissão. Esses centros são reconhecidos principalmente pelos seus programas de pós, e as graduações – sempre de boa qualidade – não são as estrelas do portfolio. Essa mentalidade é muito diferente da que se vê no Brasil, em que a principal universidade brasileira, é reconhecida muito mais pelos seus cursos de graduação, e o número de graduandos é mais do que o dobro da pós – na UnB esse número é de quase 5 pra 1, sendo que provavelmente menos da metade dos pós graduandos o são em tempo integral (diferentemente da realidade americana, onde quase a totalidade dos alunos de doutorado tem como sua única obrigação a pesquisa na universidade).

Continuando, como explicado no texto anterior, a permanência de um professor no ambiente universitário está relacionada entre outros a sua pesquisa, sua produtividade e seu mérito. Desde o professor recém chegado a universidade e que está buscando o seu tenure até o professor mais experiente que foi agraciado com algum prêmio, todos orientam alunos e todos coordenam algum tipo de laboratório ou grupo de pesquisas.

Vale lembrar que a pessoa que só deseja dar aulas, não se candidata a uma professorship – nem seria contratada para tal. Ela fica com a função de lecturer ou de adjunct professor, tendo contratos definidos com maior ou menor tempo de duração. Sua permanência na posição de docente vai depender de vários aspectos, em especial o número de alunos matriculados nas disciplinas que serão ministradas e a quantidade de turmas. De forma similar, a pessoa que deseja fazer só pesquisa se candidata a uma posição de research assistant professor, não necessitando ministrar aulas, ou vai trabalhar na indústria (que é o foco de 80% dos egressos dos programas de doutorado com foco em ciência e tecnologia – STEM). Normalmente um research professor trabalha associado a um laboratório ou a um centro de pesquisa da universidade, sendo que nem sempre será ele o coordenador dos projetos desenvolvidos. Seu salário é proveniente dos projetos a que está vinculado e quando não há nenhuma linha de pesquisa ativa, a sua posição docente é extinta.

Além desses dois profissionais, as universidades contam com alunos de gradução (geralmente no último ano) e de pós contratados como graders e teaching assistants. Ou seja, eles são o apoio didático do professor, corrigindo provas e trabalhos, ou ministrando aulas extras (chamadas discussions) cujo foco é a aplicação de exercícios e/ou a revisão de conteúdo. Em troca, eles recebem a gratuidade em disciplinas que estão cursando e, em alguns casos, um salário da universidade.

Assim, essa estrutura dá liberdade aos assistant, associate e endowed professors para focar em suas pesquisas, submissões de propostas de projetos e de financiamento (grants),  orientações de alunos e alguma matéria que tenha de ministrar – sendo que o tenure serve para garantir a possibilidade de desenvolver linhas de investigação controversas (que vão contra o senso comum) ou que demandam mais tempo até a obtenção de resultados. Sendo que a sua principal atividade é coordenar os grupos de pesquisa.

Os grupos de pesquisa normalmente são composto por um ou mais alunos de pós-doutorado (alguém que já tem o título de doutor, mas que está buscando um maior aperfeiçoamento em uma determinada linha de pesquisa), cinco a dez doutorandos (dependendo do tipo de pesquisa, do tamanho da universidade e da infraestrutura, esse número pode variar muito) e, às vezes, de alunos de graduação (quantidade variável conforme a complexidade dos projetos). Vale lembrar que as posições de pós-doutorado são condicionadas a financiamento e não são mais posições de titulação (não existe o diplominha de postdoc), sendo que muitas delas são bancadas por entidades externas a universidade – como no caso das vagas de postdoc que o governo brasileiro tem financiado via programa Ciências sem Fronteiras.

Cada grupo tem uma linha geral definida, que pode ser desde o uso de uma ferramenta comum de trabalho (raios-X, ressonância magnética, robôs, redes de computadores), ao estudo de campos da ciência e da sociedade (como física de partículas ou antropologia social). Dentro dessa linha geral, existem subáreas que serão trabalhadas pelos research professors, postdocs – auxiliares diretos do professor diretor do laboratório – e pelos alunos em processo de formação.

Normalmente os grupos de pesquisa também atuam em colaboração com outros laboratórios da mesma universidade, do país e mesmo internacionais, além de empresas e centros de tecnologia. O meu grupo de pesquisa, por exemplo, desenvolve projetos em parceria com a UCSD, com o Children’s Hospital LA, Stanford e University of Toronto. Grandes consórcios ou convênios de pesquisa geralmente tem mais facilidade de receber financiamento externo por meio de grants das agências de fomento. Grandes projetos em áreas como câncer, AIDS, tem envolvimentos ainda maiores de múltiplas instituições, com a criação de redes de pesquisa específicas para essas linas. Um exemplo é a Physical Sciences Oncology, do National Institute of Cancer (http://physics.cancer.gov/), que é um convênio entre 12 instituições de pesquisa para o estudo de aspectos relevantes a tumores e seus tratamentos. Assim, a troca de experiências e dados, leva a uma visão mais completa da pesquisa e propicia a obtenção de melhores resultados em menos tempo.

Ressalto que não só os professores, mas os alunos de doutorado são incentivados a correr atrás de diversas formas de financiamento, aplicando para fellowships que são concedidas por instituições públicas ou privadas. Esses financiamentos externos servem para enriquecer o currículo e ampliar as redes de contato. É importante salientar que os estudantes tem a sua produção acadêmica constantemente avaliada pelo orientador e pelas entidades que pagam os seus salários (stipends), sendo que podem ser demitidos caso os resultados não sejam satisfatórios. Além disso, o próprio processo de admissão no programa de PhD visa identificar potenciais pesquisadores, que vão se manter produtivos durante os anos de trabalho e que vão gerar resultados positivos para universidade e orientadores.

Aliam-se a essa valorização do mérito e a exigência de um trabalho bem feito, as constantes conferências e possibilidades de viagens para apresentação de seminários, além o apoio monetário e físico das universidades e das agências de fomento, a segurança jurídica gerada pelas propriedades intelectuais e a possibilidade de ver os produtos das pesquisas chegando ao mercado e gerando impacto social. Dessa forma, gera-se um ambiente de busca por resultados em que os alunos querem conseguir sua titulação e precisam de orientadores e do pagamento para se manterem no programa; os postdocs querem conseguir algum emprego fixo seja na indústria ou na academia; e os professores querem publicações e mais financiamento para continuar podendo empregar alunos e trabalhar com aquilo que eles escolherem, mas que promove a colaboração e o autodesenvolvimento.

Nesse cenário desafiador, em que o objetivo não é simplesmente vencer uma corrida, mas solucionar um problema e gerar resultados para sociedade, tem-se uma realidade que incentiva bons trabalhos. Com um balanço de prêmios e exigências, a resposta é dada com pesquisas de ponta e reconhecimento internacional.

Por Davi Marco Lyra Leite, membro da Aliança pela Liberdade desde 2009, graduado em Engenharia Elétrica pela UnB (2/2012) e estudante de doutorado da University of Southern California.

 

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