Lecturer? Professor? Qual a diferença??

Texto originalmente publicado no blog e no Facebook da Aliança pela Liberdade, entidade discente do Movimento Estudantil da Universidade de Brasília, em Novembro de 2013.

University of Chicago

Estou começando uma série de textos sobre o sistema de educação superior estadunidense e sua comparação com o brasileiro. Essa temática já foi brevemente abordada por alguns leitores da Folha de São Paulo, pelo escritor Gustavo Ioschpe, e ainda gera muitas dúvidas nos alunos do Programa Ciências sem Fronteiras. Desse modo, vou tentar explicar as principais diferenças e similaridades entre os modelos e, a partir disso, traçar um paralelo dos resultados educacionais e de mercado dos dois países. O primeiro texto trata sobre as nomenclaturas do corpo docente nas universidades americanas (em especial naquelas chamadas Research Universities, ou seja, universidades que tem programas de doutorado e foco em pesquisa).

Ao entrar no site de um departamento de uma universidade americana, um aluno brasileiro pode estranhar algumas distinções que existem entre os membros do corpo docente (Faculty Members). Há várias titulações possíveis, entre elas: Assistant e Associate Professor, Research Assistant (ou Associate) Professor, Lecturer, além dos Endowed Professors. Então vamos à explicação do que significa cada uma desses termos:

Assitant Professor: é um membro do corpo docente que ainda não tem estabilidade, seria o que chamamos no Brasil de um professor em estágio probatório. A grande diferença entre os sistemas é que a evolução profissional não se dá por tempo, mas por mérito. Em um ano o assistant professor pode conquistar o tenure (estabilidade) desde que seus resultados de pesquisa e avaliação docente sejam expressivos (muitos artigos publicados como primeiro autor na Nature e na Science levariam a isso, por exemplo). Em contrapartida, vários professores são demitidos ao final do primeiro contrato sem conseguirem essa estabilidade por não mostrarem os resultados dignos da universidade continuar a investir em suas carreiras. Esse profissional tem responsabilidades de pesquisa, orientação de alunos e de docência. Normalmente ele recebe auxílio extra da universidade para conseguir seus primeiros orientandos de doutorado e estabelecer o seu laboratório.

Associate Professor: normalmente indica o professor que acabou de conseguir o tenure (estabilidade). A partir do momento que ele mostra resultados expressivos e capacidade de atrair bons alunos e investimentos externos, a universidade lhe garante a estabilidade. Nesse caso, esse professor só será demitido caso viole normas da instituição ou seu desempenho caia consideravelmente e sem justificativas, tanto na pesquisa como na docência, o que é muito raro – seria algo equivalente a demissão por justa causa. Normalmente esse tipo de profissional coordena seu próprio grupo de pesquisa e recebe auxílios de pesquisa de National Science Foundation, do National Institute of Health entre outros agências fomentadoras, que são em parte usados para melhorar a infraestrutura de laboratórios e para pagar o salário dos alunos de doutorado e de pesquisadores do grupo. Muitas vezes ele tem também funções administrativas na universidade, seja coordenando comitê de seleção de alunos, comitê de currículo, ou supervisionando projetos com financiamento externo.
Obs: algumas universidades contratam pessoas para os cargos de associate professor sem que elas tenham o tenure. Nesse caso, durante os anos do contrato é esperado que a pessoa se qualifique para obtenção da estabilidade.

Professor: é um professor com tenure (estabilidade), que já está a mais tempo na universidade, pelo menos uns 15 a 20 anos e tem grande reconhecimento acadêmico. No Brasil seria o equivalente ao cargo de professor titular. Coordena grupos de pesquisa, orienta alunos, ministra aulas e participa de comitês dentro do departamento e da universidade como um todo. Na maior parte dos casos, tem um reconhecimento a nível nacional e internacional.

Endowed Professor: é um professor que tem antes do título o nome de alguma outra pessoa, por exemplo Professor Shri Naranayan, Andrew Viterbi Professor of Engineering. É um professor de destacada contribuição acadêmica e que recebe parte do seu salário a partir de doações de um beneficiário da universidade (no caso do exemplo acima, Andrew Viterbi, fundador da Qualcomm, paga parte do salário de um dos professores do meu departamento). A escolha do membro do corpo docente que ocupará a posição com endowment pode ser feita basicamente de duas formas: seleção interna dentro do departamento, em que os professores concorrem; ou nomeação por parte do doador. São normalmente os membros do corpo docente mais respeitados em suas áreas de pesquisa e com maiores contribuições para o nome da instituição de ensino. Assim como o Assistant Professor, o Professor e o Associate Professor ele é responsável por atividades de ensino e pesquisa.

Lecturer (ou Instructor): é o profissional que tem como única obrigação dar aulas. Ele é contratado pela universidade para ministrar disciplinas e pode ter um contrato com maior ou menor duração e estabilidade, o que dependerá da experiência e das avaliações internas da instituição. Em sua maioria, ministra disciplinas para a graduação e matérias de laboratório, mas também pode ser um profissional da área de ciências da saúde e que não tenha um título de médico, enfermeiro ou dentista. Alguns lecturers não terminaram o doutorado ou são recém doutores que visam um aprofundamento maior na docência enquanto preparam a candidatura para uma posição de professor. Muitos deles também trabalham em outros lugares e apresentam uma abordagem com foco menos acadêmico em suas aulas.

Adjunct Professor: é um professor em tempo parcial da universidade. Normalmente alguém com emprego em alguma empresa ou fundação e que é contratado para dar aulas de tópicos específicos. Também pode ser um professor contratado por um departamento, mas que está ministrando aulas em outro com o qual não terá vínculo pleno. Nesse último caso, se o professor confirmar oficialmente a sua afiliação ao outro departamento, mas mantendo a sua posição original, ele se tornará um Affiliated Professor.

Research Assistant (ou Associate) Professor: é o membro do corpo docente com obrigações únicas e exclusivas de pesquisa. É um profissional doutor que faz parte dos quadros da universidade e não está mais sob a tutela de um orientador (ou seja, já passou do nível de pós-doutorado). É uma carreira para aqueles estudantes que desejam permanecer fazendo pesquisa na academia, mas sem a obrigação de dar aulas. Também pode ser um primeiro passo na busca por uma posição como professor, mas com um foco mais voltado a resultados acadêmicos e publicações do que a ensino. Normalmente esse cargo não oferece estabilidade.

Vê-se nesse sistema que existem posições de docência destinadas única e exclusivamente a pesquisa, outras destinadas apenas a ministrar aulas, além daquelas que são híbridas com responsabilidades em ambos os campos. Com isso não há a obrigatoriedade que vemos no Brasil do profissional exercer as funções de pesquisador e docente caso ele não queria. O resultado direto é o de professores estarem mais adequados e satisfeitos em suas funções.

Um outro ponto interessante é que um profissional não precisa seguir todos os passos dentro da mesma universidade até chegar a posição de endowed professor ou de professor. Alguém pode ser contratado diretamente de uma indústria para o cargo de professor, como foi o caso do professor Shri, ou vir de uma outra universidade para a posição de endowed, como aconteceu com o professor Guillermo Sapiro, que lecionava na Universidade de Minnesota e foi contratado como Edmund T. Pratt Professor of Engineering pela Duke University.

Por fim, uma característica muito diferenciada do que vemos no Brasil é que os professores são responsáveis por conseguir de fontes externas partes do seu salário. Muitas universidades, mesmo as de grande porte, fazem contratos que garantem pagamentos apenas de 10 meses de trabalho para todos os professores. Com isso os meses extras, normalmente no período de verão, são dedicados a pesquisa e são financiados pelas instituições de fomento ou doadores. Obviamente que, se um docente estiver ministrando aulas durante as férias de verão, ele receberá um salário para isso, todavia essa remuneração é normalmente bem menor e visa ser complementada com dinheiro externo. Desse modo, há sempre o incentivo aos professores saberem captar recursos externos e essa é uma habilidade decisiva na hora de definir a contratação de um novo docente.

Os salários de profissionais americanos são calculados de forma anual, ao invés de falar que alguém ganha US$ 5.000,00/mês fala-se que a pessoa ganha US$ 60.000,00/ano. Desse modo, ao não receber o pagamento em dois meses do ano, o profissional não está sendo prejudicado pois ele continuará recebendo o valor total que foi acordado. A pessoa pode se contentar com esse valor e não buscar fontes externas para os meses em que não há o pagamento – visto que estaria recebendo aquele salário diluído nos outros meses do ano- ou buscar os financiamentos externos para tentar se beneficiar monetariamente. Que fique bem claro: o sistema não trapaceia com os profissionais, eles sabem todas as regras do jogo quando aceitam o emprego!

Espero que as distinções estejam mais claras agora. No próximo texto vou falar um pouco mais sobre as estruturas voltadas a pesquisa: programas de doutorado, laboratórios e colaborações com empresas.

Por Davi Marco Lyra Leite, membro da Aliança pela Liberdade desde 2009, graduado em Engenharia Elétrica pela UnB (2/2012) e estudante de doutorado da University of Southern California.

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