Educação e Pesquisa

Texto originalmente publicado no blog e no Facebook da Aliança pela Liberdade, entidade discente do Movimento Estudantil da Universidade de Brasília, em Novembro de 2013.

Algumas diferenças entre o sistema de ensino americano e o brasileiro

Os resultados americanos a nível de high school (ensino médio – EM) não são tão significativos quanto os do ensino superior. Enquanto o país coleciona prêmios Nobel, ele se encontra apenas em 17o lugar no PISA (http://www.oecd.org/pisa/46643496.pdf) – resultado esse da avaliação aplicada a estudantes de 15 anos de idade, 10o ano do colégio (segundo ano de high school ou primeiro ano do EM brasileiro). Mas mesmo assim, algumas lições muito interessantes podem ser tiradas do modelo americano, principalmente no que tange à questão da admissão nas universidades a às atividades realizadas durante as férias de verão. Além do que, vale ressaltar que, à exceção do Japão, todos os lugares à frente dos EUA no PISA tem população total inferior ao número de alunos matriculados no sistema educacional americano (quase 82 milhões de pessoas), o que torna o desafio de oferecer uma educação abrangente e de qualidade infinitamente superior.

Muitos brasileiros que fazem intercâmbio durante o Ensino Médio (ou mesmo Ensino Fundamental) comentam que normalmente os currículos são menos aprofundados que os do Brasil, que as matérias são mais fáceis ou que o nível de exigência é menor. Alguns conteúdos que fazem parte da matriz curricular brasileira a nível de ensino fundamental são abordados normalmente nos EUA apenas nos anos de high school. Todavia, essa regra não vale para todos os Estados, para todas as escolas e para todas as modalidades de ensino, visto que o sistema americano é bem diferente do brasileiro. Um dos primeiros pontos que vale ressaltar é a ausência de uma Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), apesar de atualmente existir um projeto de currículo unificado que vem sendo adotada pelos governos estaduais chamado Common Core (http://www.corestandards.org/).

Mas como eu disse, os padrões de ensino variam muito a cada lugar e principalmente de acordo com o tipo de programa que o estudante está cursando. Normalmente há três tipos de aulas no ensino médio americano: as aulas normais, as aulas do chamado Advanced Placement (AP), e o International Baccalaureate (IB). O primeiro nível – aulas normais – compõe o corpo do Ensino Médio e conta com matérias mínimas de inglês (normalmente focando na literatura), história, geografia, matemática (especialmente álgebra), etc – sendo normalmente o nível que é cursado pelos intercambistas brasileiros. O segundo nível conta com matérias mais avançadas que podem vir a ser contadas como crédito nos cursos de graduação – existem APs em cálculo, línguas estrangeiras e inglês, física, história, entre outros. Por fim, o IB visa ter um padrão de ensino similar com várias outras localidades do mundo e normalmente apresenta um nível ainda mais aprofundado de conteúdos que os APs – alunos estudam física já usando uma abordagem de cálculo, por exemplo.

Além das aulas normais, os alunos americanos ainda devem escolher algumas matérias/atividades optativas para completar suas horas de formação acadêmica. Entre essas atividades encontram-se por exemplo pesquisas em ciências, jornalismo, esportes, línguas estrangeiras, artes, computação. Com isso, o aluno normalmente não fica só engessado nas aulas normais – há vantagens e desvantagens desse modelo, reconheço, mas ele tem por objetivo dar uma visão mais ampla do que só a de sala de aula (sendo que normalmente são essas atividades que são o foco de séries adolescentes de TV). Vale ainda lembrar que existe a opção de Homeschooling, em que os alunos não frequentam a escola e são educados em casa seja pelos pais ou por professores contratados – controvérsias à parte, esse modelo apresenta vantagens e desvantagens como qualquer outro.

Além dos programas mais aprofundados de educação, no caso o IB e o AP, existem escolas para jovens considerados superdotados como a North Carolina School of Science and Mathematics (http://en.wikipedia.org/wiki/North_Carolina_School_of_Science_and_Mathematics) ou outras escolas ao redor do país. Nelas, estudantes aprendem conteúdos ainda mais avançados e em programas mais desafiadores, que visam potencializar as habilidades dos estudantes. Sendo que muitos alunos de destacados resultados conseguem ingressar na faculdade pelo menos um semestre (quando não um ano e meio) antes de terminar o ensino médio.

No Ensino Fundamental (EF) também existe a possibilidade de aulas mais avançadas e projetos em paralelo – além da escolha de algumas disciplinas ou atividades eletivas nas escolas. Em geral, nessa fase, os alunos começam a transitar entre as salas de cada matéria, ou seja, não há a figura da sala de aula da turma A da oitava séria, mas existe a sala de aula de história, a de matemática, a de geografia. Desse modo, os professores tem a facilidade de ter os recursos didáticos a seu alcance em cada aula e podem caracterizar os seus ambientes de ensino conforme o conteúdo específico. Além do mais, o que se destaca normalmente é o objetivo de ensinar não apenas as matérias, mas como utilizar algumas ferramentas que vão fazer parte do dia-a-dia dos estudantes quando eles se formarem – como calculadoras e computadores. Com isso, vários alunos no final do EF já sabem mexer melhor nas calculadoras científicas que muitos estudantes das universidades brasileiras, apesar de, infelizmente, não entenderem as operações matemáticas que estão realizando.

E o que tudo isso tem a ver com a pesquisa e o desenvolvimento científico que são o foco dessa série de textos?

Eu identifico algumas correlações que são interessantes:

1. É mostrado aos estudantes que a sua trajetória acadêmica depende muito mais deles do que de qualquer outra pessoa. Seja na escolha das matérias que os alunos vão cursar, seja no nível de complexidade dos cursos ou na seleção de atividades extra-curriculares, o aluno é o responsável pela sua formação. Os professores atuam como facilitadores e orientadores da caminhada, mas o trabalho sempre é do aluno!

2. A carga de deveres de casa normalmente é altíssima comparada com o que vemos no Brasil, os estudantes aprendem as linhas gerais em sala de aula, mas o processo de assimilação de conteúdo vem do trabalho de cada um. Mas vale ressaltar que as escolas são normalmente preparadas para dar suporte aos alunos com centros de tutoria (monitoria), com aulas extras, com bibliotecas e com atendimento dos professores. Isso está diretamente relacionado ao que acontece no ambiente universitário e de pesquisa, em que o processo de investigação é definido pelo estudante e não pelo orientador (este pode dar dicas, pode sugerir leituras, cursos, mas ele nunca estará fazendo as coisas pelos alunos)..

3. Os alunos são incentivados a estudar aquilo que lhes atrai, podendo aprofundar os conteúdos com aulas específicas, com competições de ensino (as famosas olimpíadas de conhecimento e feiras de ciências), com projetos em laboratórios. Mas mesmo assim, eles ainda tem um mínimo de aulas sobre conteúdos gerais visando ampliar os horizontes de cada um.

4. Há um intercâmbio muito grande entre universidades e escolas! Seja com professores de EM/EF fazendo cursos de reciclagem constantemente nas unidades de ensino superior, seja com alunos realizando visitas a laboratórios das faculdades durante o período letivo ou tento as competições de ciências realizadas nos campi universitários, o aluno americano é exposto diversas vezes a uma realidade além das paredes da high school – não fica só no discurso de professores que desejam aprovação no vestibular A ou B.

5. A orientação vocacional se dá em dois níveis: carreiras e faculdades. Ao invés de só trabalhar em testes objetivos que dizem algumas habilidades dos estudantes, as escolas tentam orientar também para instituições de ensino superior que mais se adequam ao perfil do estudante – seja ele sócio-econômico, acadêmico, pessoal. Por exemplo, pegando um caso simples aqui da Califórnia e que envolve duas universidades de ponta: um aluno que que é totalmente contrário ao ambiente de política estudantil, nem de protestos, provavelmente não se sentiria bem na UC Berkeley, em contrapartida poderia se sentir em casa em Stanford, cujo foco é mais acadêmico.

6. Os alunos são ensinados a buscar resultados pensando em metas de médio e longo prazo. Diferentemente do sistema brasileiro em que uma prova define se você entra ou não na universidade, nos EUA a carreira acadêmica inteira do aluno é avaliada na hora da admissão no ensino superior. Assim, um aluno no final do ensino fundamental e no início de ensino médio já começa a pensar o que ele pode fazer para ser admitido na universidade dos seus sonhos. Ele aprende a planejar os passos da sua carreira e principalmente aprende que conquistas não brotam da noite para o dia, mas que são resultados de esforço contínuo, disciplina e perseverança. O mesmo se dá no ambiente de laboratorio, em que o desenvolvimento é algo que vem com o tempo e com o trabalho bem direcionado em uma boa ideia – não com um passe de mágica ou uma noite virada estudando.

Andraka

Assim, num ambiente em que há mais liberdade de escolha no ensino – seja em currículo, seja na escolha dos alunos – a tendência é termos excelentes resultados práticos. Obviamente o sistema não é perfeito, ainda apresenta muitos pontos para melhoria, mas tem atendido às necessidades americanas e, principalmente, tem ajudado a potencializar as habilidades dos alunos. Pra terminar, deixo um exemplo de caso de sucesso da colaboração entre escolhas de matérias, competições estudantis e um sistema que valoriza resultados: o jovem Jack Andraka (http://en.wikipedia.org/wiki/Jack_Andraka, http://goo.gl/CeLbqP), que desenvolveu uma nova modalidade de teste para detecção de câncer de pâncreas motivado por um projeto de feira de ciências (ISEF).


Por Davi Marco Lyra Leite, membro da Aliança pela Liberdade desde 2009, graduado em Engenharia Elétrica pela UnB (2/2012) e estudante de doutorado da University of Southern California.

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