Agências de fomento, fundações, indústria e pesquisa

Google Campus em Mountain View
Google Campus em Mountain View, CA

Fechando a série de textos específicos sobre a realidade da pesquisa nos EUA, gostaria de falar um pouco sobre outros três agentes que podem ser associados às instituições de ensino e que são co-responsáveis pelos excelentes resultados: as agências de fomento, as fundações privadas e as indústrias.

No Brasil muitas pessoas reconhecem a importância de agências como a Capes, CNPq, FAP-DF, Fapesp, Faperj, entre outras. Elas atuam distribuindo para laboratórios e universidades verbas que são obtidas como resultados de projetos ou coletadas com impostos. Dessa forma, estudantes e professores recebem bolsas de pesquisa, investigadores são convidados para dar palestras e participarem de eventos científicos, laboratórios compram equipamentos noves. Mas será que isso é o suficiente?

Nos Estados Unidos existem grandes agências/institutos como a NSF, a NASA, o NIH, a DARPA, além de várias outras agências federais (basicamente o financiamento do ensino/pesquisa é a única área com maior intervenção federal) e estaduais – em um número muito maior que as existentes no Brasil. Uma lista de algumas fontes de financiamento de pesquisa pode ser encontrada aqui: http://goo.gl/Ix5TKk. Mas essas entidades não atuam apenas financiando pesquisa nas universidades e companhias, elas também tem seus laboratórios espalhados pelo país como o Fermilab em Illinois, Los Alamos National Laboratory em Novo Mexico, Lawrence Berkeley Lab na Califórnia, entre outros e recebem pesquisadores nacionais/internacionais durante projetos de curto, médio e longo prazos em áreas específicas.

Os laboratórios das agências estatais normalmente são co-administrados por universidades, como o caso do Fermilab (http://www.fnal.gov/) que é administrado pela University of Chicago (http://www.uchicago.edu/). Assim, os pesquisadores de projetos estaduais e federais se encontram em constante intercâmbio com os professores universitários, permitindo uma atualização de ambas as partes e potencializando novos projetos. Vejo pelo caso da USC que tem um centro de pesquisa do National Cancer Institute (http://uscpsoc.org/), com pesquisadores próprios, mas que também recebe os pós-graduandos da universidade e realiza eventos anualmente para fomentar a colaboração.

Mas as agências estatais são apenas um dos elementos no fomento de pesquisa, desenvolvimento e inovação americano. Existem diversas fundações, institutos e associações privadas (a maior parte sem fins lucrativos) que atuam financiando projetos, estudantes e universidades. Alguns exemplos são a American Heart Association, American Cancer Society, Annenberg e Ford Foundations que fornecem bolsas de pós-graduação e pós-doutorado, investem em laboratórios e professores e muitas vezes tem seus próprios laboratórios e centros de pesquisa (seja nas universidades, ou em outras localidades).

Muitos alunos brasileiros podem atestar isso em suas visitas a universidades americanas. Diversos prédios tem nomes de pessoas pois foram financiados com Endowments de pessoas, companhias ou de fundações. O prédio em que eu trabalho, por exemplo, se chama Hughes Aircraft Electrical Engineering Center devido a uma doação da companhia Hughes Aircraft. Além disso, vários alunos da USC estudam com bolsas da Annenberg Foundation cujo foco está em ciências da comunicação (cinema, publicidade, comunicação social, engenharia) e saúde. Outro exemplo de aplicação de ativos privados em pesquisa está na Fundação Gates (http://www.gatesfoundation.org/), co-dirigida por Bill e Melinda Gates e Warren Buffet – a seguinte citação descreve muito do que se passa nesse cenário:

(…) I had read a lot about how governments underinvest in basic scientific research. I thought, that’s a big mistake. If we don’t give scientists the room to deepen our fundamental understanding of the world, we won’t provide a basis for the next generation of innovations.

(…) We fill a function that government cannot—making a lot of risky bets with the expectation that at least a few of them will succeed. At that point, governments and other backers can help scale up the successful ones, a much more comfortable role for them.

Bill Gates, Wired Magazine, December 2013

Outra iniciativa são algumas start-ups ou mesmo ramos dentro de companhias maiores cujo objetivo é levantar verbas de pesquisa para projetos de grande impacto, mas que não estão no escopo de agências federais. Um exemplo disso é a recém lançada Calico (http://goo.gl/2rZNq7), uma venture da Google que visa financiar pesquisas relacionadas ao processo de envelhecimento – algo que pode dar resultados em 20 ou 30 anos e que dificilmente seria financiado por verbas estatais que objetivam um impacto a curto-médio prazo.

Dessa forma, a pesquisa não depende única e exclusivamente do governo como vemos no Brasil, e os projetos podem ter um escopo infinitamente maior do que os financiados pelo dinheiro dos pagadores de impostos. Além disso, alguns riscos diferenciados podem ser tomados o que resulta consistentemente em inovação – enquanto projetos mais conservadores tendem apenas a promover melhorias incrementais. NSF, NIH assim como Capes e CNPq não financiam projetos que sejam inovadores, normalmente as pesquisas financiadas por estas entidades tem de ser baseados em várias publicações prévias e apresentar um certo grau de segurança do investimento – diferentemente do DARPA, que financia muitos projetos de alto risco como foi com o surgimento da internet, ou ARPAnet nos seus primórdios.

Outro fator determinante para o ambiente de pesquisa americano está nas indústrias. Diferentemente do Brasil, grande parte do material humano egresso das pós-graduações (mestrados e doutorados) vai para o setor privado (cerca de 80% dos alunos de STEM – science, technology, engineering and math -, e 90% dos alunos especificamente de engenharia, enquanto no Brasil apenas cerca de 20% dos doutores se encontram fazendo pesquisa fora das universidades). Dessa forma, a universidade alimenta o mercado e recebe como resposta incentivos para melhor formação e mais pesquisa de ponta (seja com demandas, com verbas ou parcerias).

Vale lembrar que algumas das maiores companhias americanas surgiram por meio de egressos de programas de pós-graduação, como no caso do Google que foi fundado por Sergey Brin e Larry Page (estudantes de PhD em Stanford). Além disso, várias companhias apresentam seus próprios centros de pesquisa como a GE, Siemens, Toshiba, Apple os quais servem para gerar propriedade intelectual para as empresas, mas também promovem o avanço da ciência. Assim, é comum ver em diversas conferências pesquisadores de empresas apresentando trabalhos junto a professores, não ficando o universo restrito às instituições de ensino superior.

Outro fator é o intercâmbio de professores com companhias. Muitas vezes empresas contratam docentes de universidades para trabalhar em projetos específicos (por exemplo o projeto Google Glass contratou cerca de 270 pesquisadores de diversas universidades americanas nos últimos anos) ou instituições de ensino contratam funcionários de companhia para trabalhar em seus quadros docentes. Desse modo, há sempre uma rotatividade de profissionais e uma colaboração amplamente benéfica dos ambientes.

Assim, quando adicionamos múltipos agentes para fomentar a pesquisa seja no financiamento, seja nos objetivos, seja na infraestrutura, temos um ganho para a sociedade. Os alunos se beneficiam de duas formas diretas que são mais bolsas e maior empregabilidade depois de terminada a sua formação. Os professores ganham com mais fontes de financiamento, melhores laboratórioes e possibilidade de ver os seus projetos se concretizando e impactando a sociedade. As agências, os institutos e as fundações beneficiam a população e geram resultados concretos para a realidade em que se encontram. Mas o principal beneficiado de tudo isso é o indivíduo comum que consegue ter acesso a inovações constantes e um aumento significativo em qualidade de vida.

Por Davi Marco Lyra Leite, membro da Aliança pela Liberdade desde 2009, graduado em Engenharia Elétrica pela UnB (2/2012) e estudante de doutorado da University of Southern California.

 

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